domingo, 15 de janeiro de 2012

Igreja ensinadora

As despedidas dos pastores da Igreja Metodista de Vila Isabel, Ronan, Adilson e Luciano, bem como as homenagens, não param. Gestos de mútuo apreço são expressados com muita riqueza.

De minha perspectiva, a Igreja de Vila Isabel é um espaço pródigo em lições. Não é perfeita, pois seria impossível aprender apenas com a perfeição. Verificamos que a imperfeição é essencial ao crescimento, à busca da maturidade. Mesmo imperfeita é enriquecedora. Sobretudo quando a diversidade atua de modo tão estimulante e abre-nos perspectivas tão variadas e iluminadoras.

Por isso, sou imensamente grato a Deus e a essa comunidade eclesial, que tem sido uma escola inestimável ao longo de nove anos de pastorado.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Arco-íris

O texto a seguir foi escrito antes do Natal de 2011, mas só foi postado em janeiro de 2012. Mas o mais importante dele não é a época e sim a reflexão que ele pretende ensejar.


As chuvas que têm marcado estes últimos dias da primavera no Rio de Janeiro deixam sempre um arco-íris que se exibe a nordeste de onde o vejo. Vejo-o sobre a Serra do Mar, como que cobrindo Teresópolis ou, melhor, como um dossel para o Dedo de Deus.

Um arco-íris, a despeito de ser um mero fenônemo físico de refração da luz difundida na atmosfera quando permeada pelas gotículas de água nas nuvem que flutuam baixas, perto do chão, anuncia a fidelidade e a misericórdia de Deus para com a espécie humana. Observá-lo no céu, contra o fundo plúmbeo das nuvens de chuva, inspira a certeza de que Ele é paciente, benigno e demorado em irar-se. No entanto, a quem se esquece de que Deus é clemente, mas também é justo, o mesmo arco-íris que anuncia longanimidade traz consigo a advertência da punibilidade dos filhos de Adão.

E justamente a propósito de continuarmos a ver o arco-íris, é que sua figura se faz tão atual e necessária. Sim, e isso exatamente pelo fato de que a raça humana se tem tornado cada vez mais cínica e insensível e sempre, sempre mais ensandecida pelo êxtase de suas culpas. Por mais informada e esclarecida, ela só sabe aumentar a sanha de sua opressão, a malignidade de sua violência, a insensatez de seus crimes contra tudo que vive sob a abóbada celeste.

Floresce sob o céu a civilização moderna – que só é de fato moderna para minorias que, afortunadamente, conseguem desfrutar dos avanços jurídicos, sociais e tecnológicos da atualidade. Mas na medida em que a humanidade ocupa espaços, contraditoriamente oscila entre luxo e miséria, conforto e sofrimento, gênio e estupidez, beleza e fealdade.

Ver no céu o arco da aliança de paz é, ao mesmo tempo, a certeza de que nenhum temporal, por pior que seja, jamais poderá destruir a humanidade e que, igualmente, Deus impõe a si mesmo o ônus da vigilância e do juízo sobre o que faz essa humanidade, responsável, queira ou não, por seus rumos sobre a Terra.

Nova nomeação

Fui nomeado para a Igreja Metodista de Copacabana. E agora? Vejo nisto a resposta de Deus e sua mão mostrando o caminho a seguir.

Sou grato à Igreja Metodista de Vila Isabel por seu apoio nesses nove anos de serviço e manterei com ela uma relação sempre cordial e de carinho. Saúdo a Igreja de Copacabana com a graça e a paz do Senhor Jesus Cristo na expectativa de iniciar uma relação de comunhão e serviço, dedicando-me ao ministério que o Senhor e a Igreja me confiaram.

Aos colegas com quem trabalhei e com quem trabalharei, minha leal estima e consideração.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Ariovaldo Ramos fala no Fórum da Aliança Cristã Evangélica

Está disponível o vídeo com Ariovaldo Ramos falando no I Fórum da Aliança Evangélica, na 1ª Igreja Batista de Brasília (24 a 26/11/2011). Clique no título acima.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Você pode doar Bíblias em braile

Olha aí, pessoal!

A página www.doacoescoletivas.org está angariando a sua doação para entregar mais de 700 Bíblias em braile a portadores de deficiência visual. Entre lá e conheça o projeto, que é uma parceria entre a Sociedade Bíblica do Brasil e Agência Cristã de Notícias Soma.

Mas corra, que a campanha vai só até o dia 19 de dezembro.

Eu conheço e apóio esse projeto.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Igrejas internacionais e o futuro das comunidades multi-étnicas na Europa

Uma olhada de relance em um prospecto em inglês e a sigla Feic lembrou-me o vocábulo fake, que pode ser traduzido por algo falso, uma imitação etc. No entanto, falando sobre a organização retratada no prospecto, chega-se à conclusão de que a novidade, que iniciou atividades em 2004, pode ser uma das mais novas e eficazes maneiras de driblar a tendência geral de esvaziamento dos templos protestantes do Velho Mundo.

Um pastor pentecostal brasileiro que regressou da Europa recentemente relatou a empolgação que tem dominado as comunidades de imigrantes naquele continente e que, até bem pouco tempo, tinham a perspectiva de se reunir para cultuar apenas em pequenos grupos marginais. A organização, cuja sigla em inglês é Fellowship of European International Churches (Fraternidade de Igrejas Européias Internacionais), afirma que seus propósitos são: plantar novas igrejas, levar igrejas existentes ao desenvolvimento estratégico e ser parceira de igrejas nacionais na realização do ministério internacional. Sua principal aliada é a organização pentecostal Missões Mundiais das Assembléias de Deus (AGWM).

– “As igrejas estão cheias, com gente que veio de várias partes do mundo: alguns encontros acontecem em galpões adaptados que concentram espaços para atividades de diversas culturas estrangeiras. São reuniões com cerca de 1.500 pessoas”, comemora o pastor.

A Feic tem parcerias também com o grupo Mosaix e a Fraternidade Européia Pentecostal (PEF, em inglês), patenteando a natureza carismática do movimento. Mas o que mais chama a atenção é que o propósito é agir ministerialmente em cenários alternativos do universo populacional da Europa e tratar os imigrantes como o seu virtual campo missionário, reconhecendo e agindo na Europa junto a uma mescla urbana e atingindo, por tabela, conexões em todas as partes do mundo. Assim, as igrejas que participam da Feic buscam a sustentabilidade dentro desse modelo de relacionamento, compartilhando alguns recursos específicos a seu respectivo ministério, compartilhando dicas de planejamento e ferramentas diversas para o aprimoramento de seu pessoal, a renovação estratégica e o desenvolvimento de lideranças.

Nos termos-chave usados pela Feic e suas parceiras descobre-se a intenção de criarem-se novas igrejas multi-étnicas, ter mais trabalho em rede (network) e desenvolver relacionamento entre pessoas que se vêem como pioneiros em uma nova terra. Quem integra o movimento se sente inspirado pelas oportunidades únicas de atender necessidades e enfrentar desafios nas comunidades internacionais em diversos países europeus e se orgulha de que suas congregações são um entrelaçado de culturas, raças, povos, línguas e tradições.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Quem acha que a divisão do Pará vai virar roubalheira?

Este texto mostra com clareza a coragem e a visão do padre Antônio Vieira. Faz falta a sua leitura por todos os brasileiros, pois é incrível a semelhança dos fatos do século XVII com os dias atuais, com o abandono das populações de Pará e Maranhão na atualidade, cuja explicação se percebe na narrativa histórica.


TAPAJÓS E CARAJÁS: FURTO, FURTEI, FURTAREI
Texto do professor José Ribamar Bessa Freire publicado no jornal Diário do Amazonas (09/10/2011)

Essa foi a vaia mais estrondosa e demorada de toda a história da Amazônia. Começou no dia 4 de abril de 1654, em São Luís do Maranhão, com a conjugação do verbo furtar, e continuou ressoando em Belém, num auditório da Universidade Federal do Pará, na última quinta-feira, 6 de outubro, quando estudantes hostilizaram dois deputados federais que defendiam a criação dos estados de Tapajós e Carajás.

A vaia, que atravessou os séculos, só será interrompida no dia 11 de dezembro próximo, quando quase 5 milhões de eleitores paraenses irão às urnas para votar, num plebiscito, se querem ou não a criação dos dois Estados desmembrados do Pará, que ficará reduzido a apenas 17% de seu atual território caso a resposta dos eleitores seja afirmativa.

A proposta de divisão territorial não é nova. Embora o fato não seja ensinado nas escolas, o certo é que Portugal manteve dois estados na América: o Estado do Brasil e o Estado do Maranhão e Grão-Pará, cada um com governador próprio, leis próprias e seu corpo de funcionários.

Somente um ano depois da Independência do Brasil, em agosto de 1823, é que o Grão-Pará aderiu ao estado independente, com ele se unificando.

Pois bem, no século XVII, a proposta era criar mais estados. Os colonos começaram a pressionar o rei de Portugal, D. João IV, para que as capitanias da região norte fossem transformadas em entidades autônomas. O padre Antônio Vieira, conselheiro do rei de Portugal, D. João IV, convenceu o monarca a fazer exatamente o contrário, criando um governo único do Estado do Maranhão e Grão-Pará sediado inicialmente em São Luís e depois em Belém.

Para isso, o missionário jesuíta usou um argumento singular. Ele alegava que se o rei criasse outros estados na Amazônia, teria que nomear mais governadores, o que dificultaria o controle sobre eles. É mais fácil vigiar um ladrão do que dois, escreveu Vieira em carta ao rei, de 4 de abril de 1654: “Digo, senhor, que menos mal será um ladrão que dois, e que mais dificultoso será de achar dois homens de bem que um só”.

Num sermão que pregou na sexta-feira santa, já em Lisboa, perante um auditório onde estavam membros da corte, juízes, ministros e conselheiros da Coroa, o padre Vieira, recém-chegado do Maranhão, acusou os governadores, nomeados por três anos, de enriquecerem durante o triênio, juntamente com seus amigos e apaniguados, dizendo que eles conjugavam o verbo furtar em todos os tempos, modos e pessoas. Vale a pena transcrever um trecho do seu sermão:

– “Furtam pelo modo infinitivo, porque não tem fim o furtar com o fim do governo, e sempre lá deixam raízes em que se vão continuando os furtos. Esses mesmos modos conjugam por todas as pessoas: porque a primeira pessoa do verbo é a sua, as segundas os seus criados, e as terceiras quantos para isso têm indústria e consciência”.

Segundo Vieira, os governadores ”furtam juntamente por todos os tempos”. Roubam no tempo presente , “que é o seu tempo” durante o triênio em que governam, e roubam ainda ”no pretérito e no futuro”. Roubam no passado perdoando dívidas antigas com o Estado em troca de propinas, “vendendo perdões” e roubam no futuro quando “empenham as rendas e antecipam os contrato, com que tudo, o caído e não caído, lhe vem a cair nas mãos”.

O missionário jesuíta, conselheiro e confessor do rei, prosseguiu: “Finalmente, nos mesmos tempos não lhe escapam os imperfeitos, perfeitos, mais-que-perfeitos, e quaisquer outros, porque furtam, furtavam, furtaram, furtariam e haveriam de furtar mais se mais houvesse. Em suma, que o resumo de toda esta rapante conjugação vem a ser o supino do mesmo verbo: a furtar, para furtar. E quando eles têm conjugado assim toda a voz ativa, e as miseráveis províncias suportado toda a passiva, eles como se tiveram feito grandes serviços tornam carregados de despojos e ricos; e elas ficam roubadas e consumidas”.

Numa atitude audaciosa, padre Vieira chama o próprio rei às suas responsabilidades, concluindo: “Em qualquer parte do mundo se pode verificar o que Isaías diz dos príncipes de Jerusalém: os teus príncipes são companheiros dos ladrões. E por que? São companheiros dos ladrões, porque os dissimulam; são companheiros dos ladrões, porque os consentem; são companheiros dos ladrões, porque lhes dão os postos e os poderes; são companheiros dos ladrões, porque talvez os defendem; e são finalmente, seus companheiros, porque os acompanham e hão de acompanhar ao inferno, onde os mesmos ladrões os levam consigo”.

Os dois novos Estados – Carajás e Tapajós – se criados, significam mais governadores, mais deputados, mais juizes, mais tribunais de contas, mais mordomias, mais assaltos aos cofres públicos. Por isso, o Conselho Indígena dos rios Tapajós e Arapiuns, sediado em Santarém, representando 13 povos de 52 aldeias, se pronunciou criticamente em relação à proposta. Em nota oficial, esclarece: “Os indígenas, os quilombolas e os trabalhadores da região nunca estiveram na frente do movimento pela criação do Estado do Tapajós, porque essa não era sua reivindicação e também porque não eram convidados. Esse movimento foi iniciado e liderado nos últimos anos por políticos. E nós temos aprendido que o que é bom para essa gente dificilmente é bom para nós”.


O professor José Ribamar Bessa Freire coordena o Programa de Estudos dos Povos Indígenas (UERJ), pesquisa no Programa de Pós-Graduação em Memória Social (UNIRIO).