sábado, 31 de maio de 2008

Desafio aos editores

Coluna Livro&Cia, in Jornal Palavra, Rio de Janeiro, 2005
O comentário foi como um chacoalhão, uma ficha que cai e faz aquele som metálico daquelas antigas maquinetas de balas, nas quais se girava uma borboleta, até que esferas coloridas desciam até nossas mãos.

Comparando alguma coisa da qual não me lembro, mencionei, durante um estudo bíblico, a revista Sétimo Céu, entre outras revistas de fotonovelas semelhantes, quando uma jovem senhora me interrompeu com uma observação: – “Pastor, você é velho, hein!”.

Sem dúvida, eu já sabia que as fotonovelas não são mais figurinha fácil em bancas de revistas. Mas eu também sei que elas não sumiram de todo. Foram superadas por uma enxurrada de aparelhos de TV em cada casa, rica ou pobre, do país. Folhetins em preto e branco, elas também não poderiam concorrer com um sem-número de aparelhinhos portáteis de jogos eletrônicos, inclusive em telefones celulares. Mas eu não podia disfarçar o fato de que eu fui testemunha do tempo em que fotonovelas faziam sucesso. Lembro-me por exemplo, de quando menino, acompanhava minha mãe em dia de cabeleireiro e ficava uma eternidade esperando-a fazer escova, secador, manicura... Enquanto isso, folheava as revistas – em geral fotonovelas – que jorravam de algum suporte num canto do salão. E, machismo à parte, devo reconhecer que as revistas eram atraentes, variadas. Isso para não dizer que, para milhões de pessoas, era quase a única leitura. E nem importa que fosse ideologicamente alienante, uma subliteratura, de qualidade duvidosa, algumas verdadeiros dramalhões. Pessoas simples as consumiam – acompanhavam, na verdade – sem escrúpulos burgueses, como hoje se consome na TV o “Ratinho”, Gilberto Barros, Adriane Galisteu ou Luciana Gimenez, só para começar.

Mas, se essa forma de comunicação fez tanto sucesso, por quê não foi reformulada, redirecionada para segmentos remanescentes? A despeito de quatro décadas desde a transição da fidelidade fotonovelística para a tevemania, elas seriam mais atrentes que alguns livretes ou revistas de estudo bíblico.

Cheguei ao ponto: Desafio as editoras, redatores e atores a investir nesse formato. Estou certo de que isso revolucionaria as classes de Escola Dominical e os estudos bíblicos. Os recursos tecnológicos, agora mais avançados, estão disponíveis e o público seria favorável a uma renovação visual em suas revistas, a maioria questionada por professores e líderes de EBD. É hora de aliar formatos e recursos para extrair deles o que há de mais comunicativo em favor da evangelização.


LUCIANO P. VERGARA

Jornalista, professor do Seminário Teológico Betel e pastor da Igreja Metodista

terça-feira, 27 de maio de 2008

SINTO VERGONHA DE MIM - Rui Barbosa (1914)


Discurso feito no Senado Federal, no Rio de Janeiro, Capital Federal, pelo senador Rui Barbosa, ardoroso defensor da forma republicana de governo, no dia 14 de dezembro de 1914.

Sinto vergonha de mim por ter sido educador de parte desse povo, por ter batalhado sempre pela justiça, por compactuar com a honestidade, por primar pela verdadee por ver este povo já chamado varonil enveredar pelo caminho da desonra.
Sinto vergonha de mim por ter feito parte de uma era que lutou pela democracia, pela liberdade de ser e ter que entregar aos meus filhos, simples e abominavelmente, a derrota das virtudes pelos vícios, a ausência da sensatez no julgamento da verdade, a negligência com a família, célula-mater da sociedade, a demasiada preocupação com o "eu" feliz a qualquer custo, buscando a tal "felicidade"em caminhos eivados de desrespeito para com o seu próximo.
Tenho vergonha de mim pela passividade em ouvir, sem despejar meu verbo, a tantas desculpas ditadas pelo orgulho e vaidade, a tanta falta de humildade para reconhecer um erro cometido, a tantos "floreios" para justificar atos criminosos, a tanta relutância em esquecer a antiga posição de sempre "contestar", voltar atrás e mudar o futuro.
Tenho vergonha de mim pois faço parte de um povo que não reconheço, enveredando por caminhos que não quero percorrer...
Tenho vergonha da minha impotência, da minha falta de garra, das minhas desilusões e do meu cansaço.
Não tenho para onde ir pois amo este meu chão, vibro ao ouvir meu Hino e jamais usei a minha Bandeira para enxugar o meu suor ou enrolar meu corpo na pecaminosa manifestação de nacionalidade.
Ao lado da vergonha de mim, tenho tanta pena de ti, povo brasileiro!


A falta de justiça, Srs. Senadores, é o grande mal da nossa terra, o mal dos males, a origem de todas as nossas infelicidades, a fonte de todo nosso descrédito, é a miséria suprema desta pobre nação. A sua grande vergonha diante do estrangeiro, é aquilo que nos afasta os homens, os auxílios, os capitais. A injustiça, Senhores, desanima o trabalho, a honestidade, o bem; cresta em flor os espíritos dos moços, semeia no coração das gerações que vêm nascendo a semente da podridão, habitua os homens a não acreditar senão na estrela, na fortuna, no acaso, na loteria da sorte, promove a desonestidade, promove a venalidade, promove a relaxação, insufla a cortesania, a baixeza, sob todas as suas formas. De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto. Essa foi a obra da República nos últimos anos. No outro regime (na Monarquia), o homem que tinha certa nódoa em sua vida era um homem perdido para todo o sempre, as carreiras políticas lhe estavam fechadas. Havia uma sentinela vigilante, de cuja severidade todos se temiam e que, acesa no alto, guardava a redondeza, como um farol que não se apaga, em proveito da honra, da justiça e da moralidade.


(in Obras Completas de Rui Barbosa, V. 41, t. 3, 1914, p. 86)


"De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto".

sexta-feira, 16 de maio de 2008

Sobre a doação de órgãos: Da obrigatoriedade à espontaneidade (Luciano Pereira Vergara, 1999)

Este artigo foi publicado em 1999, a propósito da lei 9.434, de fevereiro de 1997, regulamentada em junho do mesmo ano pelo decreto 2.268, adotando o conceito da doação presumida. A lei entrou em vigor em janeiro de 1998 e ocupou o noticiário durante meses. Uma conseqüência foi a obrigatoriedade da emissão de documentos de identidade declarando se o portador concorda com a doação de órgãos ou não.


Sobre a doação de órgãos: Da obrigatoriedade à espontaneidade

(Agência Soma)

A lei da doação compulsória de órgãos, recém aprovada no Senado — na verdade, uma invasão da livre vontade individual pelo estado, em nome do altruísmo — pode parecer uma lei magnânima em favor dos desfavorecidos pela vida. Serve-lhe de fachada o pretexto de suprir de órgãos aqueles que infelizmente deles necessitam. Distante da nobreza do gesto individual da doação, ao Estado não ocorre, porém, a sensatez de formular uma política educacional voltada para o altruísmo, capaz de incutir nas mentes o desejo de doar-se espontaneamente. Também não lhe ocorre que o “desmanche” de corpos pela via da coerção legal possa ferir consciências e afetos. Por outro lado, não há como não desconfiar das instituições públicas ou privadas que operacionalizarão o seqüestro de partes corpóreas, especialmente, se determinados órgãos alcançam maior valor no mercado paralelo.

As intervenções feitas em corpos têm sido, por muito tempo, alvo de especulações filosóficas e teológicas. Pode-se não querer subordinação à ética e à individualidade que revestem a preservação do corpo — vivo ou morto —, mas não se pode negar sua existência e sua importância histórica. Quem quiser, puder e souber manifestar em cartório sua vontade (como se fosse simples, por exemplo, a cidadãos que vivem em locais precários e desprovidos de recursos básicos da cidadania, firmar o seu desejo expresso), poderá não ter seu corpo violado. O que também significa que, novamente, apenas as camadas esclarecidas e com pleno acesso aos instrumentos da cidadania, terão a sua vontade respeitada. Quem não consentir mas não puder ou não souber como, não terá garantias de que, depois de morto, seus restos sejam preservados. Ouviremos, decerto, relatos, amiúde, de atos de corrupção ativa e passiva, quando familiares enlutados, inconformados com o saque a ser perpetrado em nome da lei, oferecerem propinas aos saqueadores ou, quando córneas consideradas nobres ou de rara beleza forem repassadas com ágio. Isto já ocorre sem essa legislação. Imagine-se o que poderá ocor-rer de posse da licitude do ato.

Não se questiona aqui o mérito da doação, que, aliás, é recomendável e para o que não há interdito bíblico ou moral. O que se indaga à consciência individual é se o Estado pode exercer tal domínio sobre a substância material do ser humano. Terá o Estado maior autoridade sobre a constituição do homem do que o próprio homem e sua família, após a morte? É lícito ao Estado determinar que tratamento dar-se-á ao corpo de um cidadão que falece? Poderá o Estado dar garantias de que esse seqüestro resguardará o respeito devido ao finado e a sua família? Aliás, como o Estado brasileiro pode dar quaisquer garantias em tantos outros assuntos, se muitos ítens básicos ainda não são de domínio de larga parcela da população?

As resistências que possam surgir à legislação da matéria, poderão ser de ordem moral ou religiosa, como os temores quanto aos níveis de consciência post mortem ou crenças quanto ao estado corpóreo no além-túmulo. Ninguém pode dizer que isto seja de menor importância num país onde é comum a violação de túmulos para finalidades místicas. Muito menos se pode tentar enfiar goela abaixo uma lei sobre tema tão controvertido, simplesmente, porque pode ser um instrumento fácil dentro de uma política de resultados, visto ser um crime a sua desobediência, mas que, nem de longe, representa um instrumento da razão sadia, que, via de regra, só é possível pela educação e conscientização.

Se o Estado quer a colaboração de seus cidadãos na busca de doadores, não a deveria obter pela coerção, mas através da conscientização, que, aliás, está atrasada, mas que teria resultados mais duradouros. Se deseja a boa vontade popular, por quê tentar obtê-la de modo arrogante? A inabilidade do Estado brasileiro para legislar sobre o que é, ou não, moral, fica patente em outras matérias. É o caso do combate ao contágio do vírus da AIDS, o HIV. Para diminuir o impacto da transmissão do vírus, o Estado vira “garoto-propaganda” da indústria de camisinhas, porque é menos complexo (e deve gerar impostos e dar empregos) do que conscientizar a sociedade sobre o erro (o que, insistentemente, não se quer denominar pecado) de uniões extraconjugais, da promiscuidade, do homossexualismo, etc. O Estado adverte sobre os riscos do alcoolismo, mas a legislação ainda é incapaz de promover os bons exemplos de sobriedade e freqüentemente se rende aos rendimentos da propaganda e da indústria do álcool. O mesmo poderíamos dizer do fumo, entre outros. De resto, fica bem claro que o Estado legisla melhor e mais rápido sobre a morte do que sobre a qualidade de vida. Ainda que pareça anacrônico, o direito à consciência e vontade é inalienável ao ser humano. Seria melhor que o Estado obtivesse a concordância do doador — em vida! — pela via mais razoável, isto é, o convencimento.

Tais questões também (e especialmente) pertencem à Igreja. Ela é estimulada por Deus a exercitar o altruísmo (Gálatas 6.9,10), em nome de sua fé em Cristo. É também a Igreja advertida a submeter-se às autoridades por “dever de consciência” (Romanos 13.1-7). Entretanto, a Igreja, não deve assistir calada aos excessos do poder humano, mas advertir ao povo (e às suas autoridades) acerca do pecado (Isaías 58.1).

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Libertos por Cristo para anunciar a graça - Lucas 8.26-39

26 Então, rumaram para a terra dos gerasenos, fronteira da Galiléia.
27 Logo ao desembarcar, veio da cidade ao seu encontro um homem possesso de demônios que, havia muito, não se vestia, nem habitava em casa alguma, porém vivia nos sepulcros.
28 E, quando viu a Jesus, prostrou-se diante dele, exclamando e dizendo em alta voz: Que tenho eu contigo, Jesus, Filho do Deus Altíssimo? Rogo-te que não me atormentes.
29 Porque Jesus ordenara ao espírito imundo que saísse do homem, pois muitas vezes se apoderara dele. E, embora procurassem conservá-lo preso com cadeias e grilhões, tudo despedaçava e era impelido pelo demônio para o deserto.
30 Perguntou-lhe Jesus: Qual é o teu nome? Respondeu ele: Legião, porque tinham entrado nele muitos demônios.
31 Rogavam-lhe que não os mandasse sair para o abismo.
32 Ora, andava ali, pastando no monte, uma grande manada de porcos; rogaram-lhe que lhes permitisse entrar naqueles porcos. E Jesus o permitiu.
33 Tendo os demônios saído do homem, entraram nos porcos, e a manada precipitou-se despenhadeiro abaixo, para dentro do lago, e se afogou.
34 Os porqueiros, vendo o que acontecera, fugiram e foram anunciá-lo na cidade e pelos campos.
35 Então, saiu o povo para ver o que se passara, e foram ter com Jesus. De fato, acharam o homem de quem saíram os demônios, vestido, em perfeito juízo, assentado aos pés de Jesus; e ficaram dominados de terror.
36 E algumas pessoas que tinham presenciado os fatos contaram-lhes também como fora salvo o endemoninhado.
37 Todo o povo da circunvizinhança dos gerasenos rogou-lhe que se retirasse deles, pois estavam possuídos de grande medo. E Jesus, tomando de novo o barco, voltou.
38 O homem de quem tinham saído os demônios rogou-lhe que o deixasse estar com ele; Jesus, porém, o despediu, dizendo:
39 Volta para casa e conta aos teus tudo o que Deus fez por ti. Então, foi ele anunciando por toda a cidade todas as coisas que Jesus lhe tinha feito.

Introdução:
O texto é claro. Jesus chega a uma vila dos gadarenos, próxima ao Mar da Galiléia. Aquela região (Decápolis) havia séculos fora cedida pelos dominadores assírios a outros povos, mistruando assim as antigas linhagens israelitas, com a finalidade de quebrar-lhe a identidade cultural e política.
A espiritualidade do povo local era principalmente pagã, com apenas alguns traços das antigas tradições israelitas. Suas formas de culto estavam repletas de superstições e alheias às crenças bíblicas de seus antepassados. A adoração a divindades pagãs e formas bizarras de religião punham as pessoas em contato com práticas ocultistas em cerimônias que invocavam entidades condenáveis. O homem que foi ao encontro de Jesus representava a profunda opressão espiritual e ignorância religiosa em que vivia o povo do lugar, necessitando de libertação e sentido para a sua vida.
O encontro pessoal com Jesus tem poder tremendamente transformador. Pode-se afirmar que na vida de alguém sobre quem Jesus incide esse poder há, nitidamente, um antes e um depois desse encontro.
Em uma estada do Senhor em Decápolis, região cujos habitantes descendiam da mestiçagem genética, cultural e religiosa, com o conseqüente abandono da tradicional religiosidade judaica, e ali Jesus se defrontou com um homem gadareno cujo espírito estava refém do pecado arrasador e destruidor do caráter. Esse homem já perdera as referências de sua identidade, dignidade e objetivo de vida; ele pertencia a um poder que não podia controlar, mas que o controlava e humilhava. As pessoas de sua comunidade nada podiam fazer para ajudá-lo e apenas o queriam longe de suas vidas e seus negócios.
Mas a experiência do gadareno com o Cristo marcou o fim de sua escravidão espiritual e o libertou para ter personalidade e dignidade de volta, como isso também o animava a testemunhar do favor de Deus.

Só Jesus nos leva a uma experiência que liberta e inspira a anunciar a graça maravilhosa do Senhor

I. O gadareno, antes e depois de seu encontro com Jesus
1) Antes - Lc 8.27-31:
a - desfigurado: ferido
b - atormentado: andava de dia e de noite
c - enfurecido: louco indomável
d - indigno: separado de todos, em lugar ermo e impróprio

2) Depois - Lc 8.35-39:
a - lúcido e tratável: comportamento e aparência normais
b - pacificado: aos pés de Jesus
c - manso e amigável: desejando a companhia de Jesus
d - reabilitado socialmente: testemunha da graça de Deus

II. Duas etapas e uma lição no processo de recuperação
1) O espírito imundo
a - dissimulado: vive do engano e ilusão (aliena, enlouquece)
b - não quer ser importunado: recusa o desafio, pois é fraco (teme o confronto com a verdade)
c - detém o domínio ilegitimamente (tirano, parasita)

2) A pessoa oprimida
a - deve vir a Jesus - o gadareno veio até o Senhor
b - deve adorar a Jesus - o gadareno se prostra, reconhecendo que Jesus é Deus e merece adoração

3) A Igreja e a libertação
a - é necessário criar o ambiente de libertação
b - é hora de afirmar o fim dos fatores de alienação
c - a tarefa dos discípulos

III. Pecado versus bânçãos
1) O pecado é normal para o mundo - os vizinhos do gadareno: (Lc 8.35-37)
a - não lhe ofereciam libertação, apenas cadeia
b - usavam de violência para ter a sua submissão
c - não se alegraram pela transformação do gadareno
d - ficaram indignados pelo prejuízio nos negócios impuros
e - terror do juízo divino (Jo 1.11: "Veio para o que era seu, e os seus não o receberam")

2) Bênçãos são normais para quem se dispõe a seguir a Jesus (Lc 8.35)
a - antes nu, agora vestido: alegria e liberdade com dignidade (Gn 3.21: "Fez o Senhor Deus vestimenta de peles para Adão e sua mulher e os vestiu")
b - perfeito juízo: discernimento para crer e conviver (Ef 4.23: "e vos renoveis no espírito do vosso entendimento")
c - assentado: parou de andar obssessivamente e descansou (Mt 11.29: "Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para a vossa alma")
d - para a pessoa liberta,há razões para viver, celebrar e espontaneamente anunciar as bênçãos do Senhor

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Onde estava Deus? (Neander Kraul de Miranda Pinto)

Carta escrita ao jornal O Globo (Rio de Janeiro), mas não publicada

"Onde estava Deus naqueles dias?"
Sintomático o espanto do papa em sua visita a Auschwitz. Estranho, para o principal líder de significativa parte da Igreja Cristã, a pergunta "por que Deus, o Senhor, permaneceu em silêncio"?
Será que o pontífice esqueceu as lições da história e prefere, hoje, transferir a responsabilidade das loucuras e pecados da humanidade que teimosamente rejeita o conselho de Deus para o próprio Senhor? Será que Bento XVI se esqueceu de sua participação na Juventude de Hitler? Será que a Bíblia perdeu o sentido para Joseph Ratzinger e os princípios da responsabilidade humana devem ceder lugar para os discursos "politicamente corretos" mas inteiramente desprovidos de valor moral e espiritual?
Prezado Papa, milhares sabem "onde estava Deus naqueles dias". Enquanto a maioria dos católicos e protestantes alemães seguia a um dos mais insanos personagens da história, Ele, o Senhor, estava na cela de Dietrich Bonhoeffer, um jovem pastor dissidente, respondendo aos mais profundos questionamentos humanos com mensagens que dão sentido à vida e ainda valem para os espantados de nosso tempo. Prezado Pontífice, a questão central não é "onde está Deus"? O fulcro do problema é "onde estamos nós"? Quem somos nós?
Permita-me sugerir este poema de Dietrich Bonhoeffer, que sabia onde estava Deus e quem ele, Bonhoffer, era.

QUEM SOU EU?
Dietrich Bonhoeffer

Quem sou eu? Seguidamente me dizem
que saio da minha cela tão sereno, alegre e firme
qual dono de um castelo.
Quem sou eu? Seguidamente me dizem
que da maneira como falo
aos guardas, tão livremente,
como amigo e com clareza
parece que eu esteja mandando
Quem sou eu? Também me dizem
que suporto os dias de infortúnio
impassível, sorridente e com orgulho
como um que se acostumou a vencer.
Sou mesmo o que os outros dizem de mim?
Ou apenas sou o que sei de mim mesmo?
Inqueto, saudoso, doente,
como um passarinho na gaiola,
sempre lutando por ar, como se me sufocassem,
Faminto de cores, de flores, às vezes de pássaros.
Sedento por palavras boas, por proximidade humana,
tremendo de ira a respeito da arbitrariedade e ofensa mesquinha.
Nervoso na espera de grandes coisas,
em angústia impotente pela sorte de amigos distantes,
cansado e vazio até para orar, para pensar, para produzir,
desanimado e pronto para me despedir de tudo?

Quem sou eu? Este ou aquele?
Sou hoje este e amanhã um outro?
Sou porventura tudo ao mesmo tempo?
Perante os homens um hipócrita?
E um covarde, miserável diante de mim mesmo?
Ou será que aquilo que em mim perdura,
seja como um exército em derradeira fuga,
à vista da vitória já ganha?
Quem sou eu?
A própria pergunta nesta solidão,
de mim parece pretender zombar.
Quem quer que sempre eu seja,
Tu me conheces, oh, meu Deus,
SOU TEU.

Atenciosamente,

Neander Kraul de Miranda Pinto, pastor batista

quinta-feira, 10 de abril de 2008

É "feio" não concordar (com a maioria)? (Else Amelia de Moraes Vergara)

Publicado pela Revista Soma Ano 2 - Nº 4 junho/2005 (http://www.agenciasoma.org.br/)

Debate sobre o ensino do criacionismo em escolas reflete preconceitos contra a cultura evangélica Por esta cidade onde trabalho, moro e ando, entre perigosos projéteis, convivo com jovens sem futuro ou passado. Meus alunos não querem saber quem fez o quê, quando, onde ou por quê. O que importa nem sequer é o hoje, mas o agora. A pós-modernidade foi se construindo aos poucos e a alienação é quase um objetivo de vida. Os desejos são consumíveis. Mesmo com todos os riscos, há muita promiscuidade. Nelson Rodrigues disse que suas histórias refletiam a sociedade... Aquelas coisas escondidas, hoje tão ululantes. Há pouco, vi uma jovem em situação constrangedora. Um grupo de adolescentes assistia a uma palestra sobre sexualidade. Foi-lhes perguntado sobre a importância, ou não, da virgindade. A esmagadora maioria optou pelo não. Pouquíssimos, timidamente, discordaram. O palestrante, então, escolheu um representante de cada partido e deu a palavra a um por vez: a moça confiante, que desprezava a virgindade enquanto instituição, e a tímida mocinha vestida com a carapuça de arcaica. Antes de falar, esta ouviu, embaraçada, a defesa condescendente do sexólogo: “Gente, temos que respeitar todas as opiniões”. Se foi necessário dizer isso, a priori a opinião já estava condenada a não ser “respeitável”. O caso é: Qual o valor da opinião? Posso achar, por exemplo, que a queda de Satanás talvez tenha provocado a divisão dos continentes. É opinião. Que tal outra? No Rio Grande do Sul, alguns evangélicos se reúnem para tomar cerveja, mas não jogam futebol, que consideram pecaminoso. No Rio, parece ser o contrário. São divergentes opiniões sobre as mesmas coisas. É “feio” não concordar com a maioria? A propósito, é realmente maioria, ou fazem mais barulho? E em relação à origem do Universo? Criacionismo, evolucionismo, mitos orientais, africanos, indígenas... Nosso euroamericacentrismo educacional nos aproxima institucionalmente de Darwin e sua macacada. Muitos professores de Ciências e Geografia – que lidam mais com o assunto – são evolucionistas convictos e seu discurso cientificista trata com desdém o “mito” criacionista. A escola, excluindo-se a confessional, tem uma posição neutra, ficando quase sempre refém da preferência do professor. Quanto mais os indefesos alunos! Estão à mercê de alguém que terá, ou não, uma postura ética. Uns, mais carismáticos, seduzem com esta ou aquela ideologia e seus pupilos jurarão ser a mais imutável lei, verdade absoluta. A maioria dos brasileiros não pensa muito na origem. Talvez ache pretensioso demais. Está mais preocupada com coisas imediatas, comestíveis até. Várias pessoas contam nunca terem estudado o assunto. Vai ver nem repararam! Uma vez, meu filho sofreu perseguição por insistir em rebater a teoria evolucionista no colégio, baseado nas leis da termodinâmica. Levou para a aula de Biologia livros, vídeos, e... conquistou o ódio da professora. A legislação Em concordância com a Lei de Diretrizes e Bases (LDB) 9394/96, o decreto 31.086/02 regulamenta o ensino religioso nas escolas públicas do Estado do Rio de Janeiro e orienta a “convivência para o diálogo numa sociedade pluralista, permeada de tradições religiosas”. A classe docente, porém, desconfia de um suposto proselitismo do governo estadual, associado aos evangélicos. Já os defensores da inclusão do criacionismo no currículo não querem que isso ocorra por meio do ensino religioso e, sim, como matéria científica e cultural. A cultura evangélica – criacionista – pertence ao ideário nacional, assim como a cultura indígena e a cultura iorubá, dos afro-descendentes. Segundo um levantamento da secretaria de Educação fluminense, 25 por cento dos alunos vêm da cultura evangélica. Cultura, sim, pois o aluno carrega para a escola o pensamento do seu grupo familiar, como o de qualquer outro grupo a que pertença. Essa cultura tem que ser respeitada pela escola. O processo de aprendizagem deve incluir a expansão do universo cultural do aluno, sem destruir o universo original.
Else Amelia de Moraes Vergara
Musicista e educadora, membro da igreja Metodista

sábado, 5 de abril de 2008

Libertos por Cristo para anunciar a graça - Lucas 8.26-39

L. Pereyra

Introdução:
O texto é claro. Jesus chega a uma vila dos gadarenos, próxima ao Mar da Galiléia. Aquela região (Decápolis) havia séculos fora cedida pelos dominadores assírios a outros povos, mistruando assim as antigas linhagens israelitas, com a finalidade de quebrar-lhe a identidade cultural e política.
A espiritualidade do povo local era principalmente pagã, com apenas alguns traços das antigas tradições israelitas. Suas formas de culto estavam repletas de superstições e alheias às crenças bíblicas de seus antepassados. A adoração a divindades pagãs e formas bizarras de religião punham as pessoas em contato com práticas ocultistas em cerimônias que invocavam entidades condenáveis. O homem que foi ao encontro de Jesus representava a profunda opressão espiritual e ignorância religiosa em que vivia o povo do lugar, necessitando de libertação e sentido para a sua vida.
Tese:
Só Jesus nos leva a uma experiência que liberta e inspira a anunciar a graça maravilhosa do Senhor

I. O gadareno, antes e depois de seu encontro com Jesus

1) Antes - Lc 8.27-31:
a - desfigurado: ferido
b - atormentado: andava de dia e de noite
c - enfurecido: louco indomável
d - indigno: separado de todos, em lugar ermo e impróprio
2) Depois - Lc 8.35-39:
a - lúcido e tratável: comportamento e aparência normais
b - pacificado: aos pés de Jesus
c - manso e amigável: desejando a companhia de Jesus
d - reabilitado socialmente: testemunha da graça de Deus

II. Duas etapas e uma lição no processo de recuperação
1) O espírito imundo
a - dissimulado: vive do engano e ilusão (aliena, enlouquece)
b - não quer ser importunado: recusa o desafio, pois é fraco (teme o confronto com a verdade)
c - detém o domínio ilegitimamente (tirano, parasita)
2) A pessoa oprimida
a - deve vir a Jesus - o gadareno veio até o Senhor
b - deve adorar a Jesus - o gadareno se prostra, reconhecendo que Jesus é Deus e merece adoração
3) A Igreja e a libertação
a - é necessário criar o ambiente de libertação
b - é hora de afirmar o fim dos fatores de alienação
c - a tarefa dos discípulos

III. Pecado versus bânçãos
1) O pecado é normal para o mundo - os vizinhos do gadareno: (Lc 8.35-37)
a - não lhe ofereciam libertação, apenas cadeia
b - usavam de violência para ter a sua submissão
c - não se alegraram pela transformação do gadareno
d - ficaram indignados pelo prejuízio nos negócios impuros
e - terror do juízo divino (Jo 1.11: "Veio para o que era seu, e os seus não o receberam")
2) Bênçãos são normais para quem se dispõe a seguir a Jesus (Lc 8.35)
a - antes nu, agora vestido: alegria e liberdade com dignidade (Gn 3.21: "Fez o Senhor Deus vestimenta de peles para Adão e sua mulher e os vestiu")
b - perfeito juízo: discernimento para crer e conviver (Ef 4.23: "e vos renoveis no espírito do vosso entendimento")
c - assentado: parou de andar obssessivamente e descansou (Mt 11.29: "Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para a vossa alma")
d - para a pessoa liberta,há razões para viver, celebrar e espontaneamente anunciar as bênçãos do Senhor

Conclusão:
Qualquer pessoa pode ter, por meio de Cristo, a experiência de passar do 'antes' para o 'depois'.
Qualquer que usar a fé na mensagem amorosa de Jesus pode ser liberto das condições de culpa e vergonha e passar a ser um seguidor de Jesus Cristo.
Todos que experimentam o poder transformador do Evangelho sentem o impulso de anunciar a graça do Senhor, como depoimento pessoal de fé.