O texto a seguir foi escrito antes do Natal de 2011, mas só foi postado em janeiro de 2012. Mas o mais importante dele não é a época e sim a reflexão que ele pretende ensejar.
As chuvas que têm marcado estes últimos dias da primavera no Rio de Janeiro deixam sempre um arco-íris que se exibe a nordeste de onde o vejo. Vejo-o sobre a Serra do Mar, como que cobrindo Teresópolis ou, melhor, como um dossel para o Dedo de Deus.
Um arco-íris, a despeito de ser um mero fenônemo físico de refração da luz difundida na atmosfera quando permeada pelas gotículas de água nas nuvem que flutuam baixas, perto do chão, anuncia a fidelidade e a misericórdia de Deus para com a espécie humana. Observá-lo no céu, contra o fundo plúmbeo das nuvens de chuva, inspira a certeza de que Ele é paciente, benigno e demorado em irar-se. No entanto, a quem se esquece de que Deus é clemente, mas também é justo, o mesmo arco-íris que anuncia longanimidade traz consigo a advertência da punibilidade dos filhos de Adão.
E justamente a propósito de continuarmos a ver o arco-íris, é que sua figura se faz tão atual e necessária. Sim, e isso exatamente pelo fato de que a raça humana se tem tornado cada vez mais cínica e insensível e sempre, sempre mais ensandecida pelo êxtase de suas culpas. Por mais informada e esclarecida, ela só sabe aumentar a sanha de sua opressão, a malignidade de sua violência, a insensatez de seus crimes contra tudo que vive sob a abóbada celeste.
Floresce sob o céu a civilização moderna – que só é de fato moderna para minorias que, afortunadamente, conseguem desfrutar dos avanços jurídicos, sociais e tecnológicos da atualidade. Mas na medida em que a humanidade ocupa espaços, contraditoriamente oscila entre luxo e miséria, conforto e sofrimento, gênio e estupidez, beleza e fealdade.
Ver no céu o arco da aliança de paz é, ao mesmo tempo, a certeza de que nenhum temporal, por pior que seja, jamais poderá destruir a humanidade e que, igualmente, Deus impõe a si mesmo o ônus da vigilância e do juízo sobre o que faz essa humanidade, responsável, queira ou não, por seus rumos sobre a Terra.
Toda técnica só é válida quando promove o ser humano em conexão com Deus, com o semelhante e com o ecossistema em que vive. Qualquer cultura só tem valor autêntico quando aperfeiçoa as pessoas para estas interagirem assim.
segunda-feira, 19 de dezembro de 2011
Nova nomeação
Fui nomeado para a Igreja Metodista de Copacabana. E agora? Vejo nisto a resposta de Deus e sua mão mostrando o caminho a seguir.
Sou grato à Igreja Metodista de Vila Isabel por seu apoio nesses nove anos de serviço e manterei com ela uma relação sempre cordial e de carinho. Saúdo a Igreja de Copacabana com a graça e a paz do Senhor Jesus Cristo na expectativa de iniciar uma relação de comunhão e serviço, dedicando-me ao ministério que o Senhor e a Igreja me confiaram.
Aos colegas com quem trabalhei e com quem trabalharei, minha leal estima e consideração.
Sou grato à Igreja Metodista de Vila Isabel por seu apoio nesses nove anos de serviço e manterei com ela uma relação sempre cordial e de carinho. Saúdo a Igreja de Copacabana com a graça e a paz do Senhor Jesus Cristo na expectativa de iniciar uma relação de comunhão e serviço, dedicando-me ao ministério que o Senhor e a Igreja me confiaram.
Aos colegas com quem trabalhei e com quem trabalharei, minha leal estima e consideração.
quinta-feira, 8 de dezembro de 2011
Ariovaldo Ramos fala no Fórum da Aliança Cristã Evangélica
Está disponível o vídeo com Ariovaldo Ramos falando no I Fórum da Aliança Evangélica, na 1ª Igreja Batista de Brasília (24 a 26/11/2011). Clique no título acima.
segunda-feira, 5 de dezembro de 2011
Você pode doar Bíblias em braile
Olha aí, pessoal!
A página www.doacoescoletivas.org está angariando a sua doação para entregar mais de 700 Bíblias em braile a portadores de deficiência visual. Entre lá e conheça o projeto, que é uma parceria entre a Sociedade Bíblica do Brasil e Agência Cristã de Notícias Soma.
Mas corra, que a campanha vai só até o dia 19 de dezembro.
Eu conheço e apóio esse projeto.
A página www.doacoescoletivas.org está angariando a sua doação para entregar mais de 700 Bíblias em braile a portadores de deficiência visual. Entre lá e conheça o projeto, que é uma parceria entre a Sociedade Bíblica do Brasil e Agência Cristã de Notícias Soma.
Mas corra, que a campanha vai só até o dia 19 de dezembro.
Eu conheço e apóio esse projeto.
terça-feira, 29 de novembro de 2011
Igrejas internacionais e o futuro das comunidades multi-étnicas na Europa
Uma olhada de relance em um prospecto em inglês e a sigla Feic lembrou-me o vocábulo fake, que pode ser traduzido por algo falso, uma imitação etc. No entanto, falando sobre a organização retratada no prospecto, chega-se à conclusão de que a novidade, que iniciou atividades em 2004, pode ser uma das mais novas e eficazes maneiras de driblar a tendência geral de esvaziamento dos templos protestantes do Velho Mundo.
Um pastor pentecostal brasileiro que regressou da Europa recentemente relatou a empolgação que tem dominado as comunidades de imigrantes naquele continente e que, até bem pouco tempo, tinham a perspectiva de se reunir para cultuar apenas em pequenos grupos marginais. A organização, cuja sigla em inglês é Fellowship of European International Churches (Fraternidade de Igrejas Européias Internacionais), afirma que seus propósitos são: plantar novas igrejas, levar igrejas existentes ao desenvolvimento estratégico e ser parceira de igrejas nacionais na realização do ministério internacional. Sua principal aliada é a organização pentecostal Missões Mundiais das Assembléias de Deus (AGWM).
– “As igrejas estão cheias, com gente que veio de várias partes do mundo: alguns encontros acontecem em galpões adaptados que concentram espaços para atividades de diversas culturas estrangeiras. São reuniões com cerca de 1.500 pessoas”, comemora o pastor.
A Feic tem parcerias também com o grupo Mosaix e a Fraternidade Européia Pentecostal (PEF, em inglês), patenteando a natureza carismática do movimento. Mas o que mais chama a atenção é que o propósito é agir ministerialmente em cenários alternativos do universo populacional da Europa e tratar os imigrantes como o seu virtual campo missionário, reconhecendo e agindo na Europa junto a uma mescla urbana e atingindo, por tabela, conexões em todas as partes do mundo. Assim, as igrejas que participam da Feic buscam a sustentabilidade dentro desse modelo de relacionamento, compartilhando alguns recursos específicos a seu respectivo ministério, compartilhando dicas de planejamento e ferramentas diversas para o aprimoramento de seu pessoal, a renovação estratégica e o desenvolvimento de lideranças.
Nos termos-chave usados pela Feic e suas parceiras descobre-se a intenção de criarem-se novas igrejas multi-étnicas, ter mais trabalho em rede (network) e desenvolver relacionamento entre pessoas que se vêem como pioneiros em uma nova terra. Quem integra o movimento se sente inspirado pelas oportunidades únicas de atender necessidades e enfrentar desafios nas comunidades internacionais em diversos países europeus e se orgulha de que suas congregações são um entrelaçado de culturas, raças, povos, línguas e tradições.
Um pastor pentecostal brasileiro que regressou da Europa recentemente relatou a empolgação que tem dominado as comunidades de imigrantes naquele continente e que, até bem pouco tempo, tinham a perspectiva de se reunir para cultuar apenas em pequenos grupos marginais. A organização, cuja sigla em inglês é Fellowship of European International Churches (Fraternidade de Igrejas Européias Internacionais), afirma que seus propósitos são: plantar novas igrejas, levar igrejas existentes ao desenvolvimento estratégico e ser parceira de igrejas nacionais na realização do ministério internacional. Sua principal aliada é a organização pentecostal Missões Mundiais das Assembléias de Deus (AGWM).
– “As igrejas estão cheias, com gente que veio de várias partes do mundo: alguns encontros acontecem em galpões adaptados que concentram espaços para atividades de diversas culturas estrangeiras. São reuniões com cerca de 1.500 pessoas”, comemora o pastor.
A Feic tem parcerias também com o grupo Mosaix e a Fraternidade Européia Pentecostal (PEF, em inglês), patenteando a natureza carismática do movimento. Mas o que mais chama a atenção é que o propósito é agir ministerialmente em cenários alternativos do universo populacional da Europa e tratar os imigrantes como o seu virtual campo missionário, reconhecendo e agindo na Europa junto a uma mescla urbana e atingindo, por tabela, conexões em todas as partes do mundo. Assim, as igrejas que participam da Feic buscam a sustentabilidade dentro desse modelo de relacionamento, compartilhando alguns recursos específicos a seu respectivo ministério, compartilhando dicas de planejamento e ferramentas diversas para o aprimoramento de seu pessoal, a renovação estratégica e o desenvolvimento de lideranças.
Nos termos-chave usados pela Feic e suas parceiras descobre-se a intenção de criarem-se novas igrejas multi-étnicas, ter mais trabalho em rede (network) e desenvolver relacionamento entre pessoas que se vêem como pioneiros em uma nova terra. Quem integra o movimento se sente inspirado pelas oportunidades únicas de atender necessidades e enfrentar desafios nas comunidades internacionais em diversos países europeus e se orgulha de que suas congregações são um entrelaçado de culturas, raças, povos, línguas e tradições.
segunda-feira, 28 de novembro de 2011
Quem acha que a divisão do Pará vai virar roubalheira?
Este texto mostra com clareza a coragem e a visão do padre Antônio Vieira. Faz falta a sua leitura por todos os brasileiros, pois é incrível a semelhança dos fatos do século XVII com os dias atuais, com o abandono das populações de Pará e Maranhão na atualidade, cuja explicação se percebe na narrativa histórica.
TAPAJÓS E CARAJÁS: FURTO, FURTEI, FURTAREI
Texto do professor José Ribamar Bessa Freire publicado no jornal Diário do Amazonas (09/10/2011)
Essa foi a vaia mais estrondosa e demorada de toda a história da Amazônia. Começou no dia 4 de abril de 1654, em São Luís do Maranhão, com a conjugação do verbo furtar, e continuou ressoando em Belém, num auditório da Universidade Federal do Pará, na última quinta-feira, 6 de outubro, quando estudantes hostilizaram dois deputados federais que defendiam a criação dos estados de Tapajós e Carajás.
A vaia, que atravessou os séculos, só será interrompida no dia 11 de dezembro próximo, quando quase 5 milhões de eleitores paraenses irão às urnas para votar, num plebiscito, se querem ou não a criação dos dois Estados desmembrados do Pará, que ficará reduzido a apenas 17% de seu atual território caso a resposta dos eleitores seja afirmativa.
A proposta de divisão territorial não é nova. Embora o fato não seja ensinado nas escolas, o certo é que Portugal manteve dois estados na América: o Estado do Brasil e o Estado do Maranhão e Grão-Pará, cada um com governador próprio, leis próprias e seu corpo de funcionários.
Somente um ano depois da Independência do Brasil, em agosto de 1823, é que o Grão-Pará aderiu ao estado independente, com ele se unificando.
Pois bem, no século XVII, a proposta era criar mais estados. Os colonos começaram a pressionar o rei de Portugal, D. João IV, para que as capitanias da região norte fossem transformadas em entidades autônomas. O padre Antônio Vieira, conselheiro do rei de Portugal, D. João IV, convenceu o monarca a fazer exatamente o contrário, criando um governo único do Estado do Maranhão e Grão-Pará sediado inicialmente em São Luís e depois em Belém.
Para isso, o missionário jesuíta usou um argumento singular. Ele alegava que se o rei criasse outros estados na Amazônia, teria que nomear mais governadores, o que dificultaria o controle sobre eles. É mais fácil vigiar um ladrão do que dois, escreveu Vieira em carta ao rei, de 4 de abril de 1654: “Digo, senhor, que menos mal será um ladrão que dois, e que mais dificultoso será de achar dois homens de bem que um só”.
Num sermão que pregou na sexta-feira santa, já em Lisboa, perante um auditório onde estavam membros da corte, juízes, ministros e conselheiros da Coroa, o padre Vieira, recém-chegado do Maranhão, acusou os governadores, nomeados por três anos, de enriquecerem durante o triênio, juntamente com seus amigos e apaniguados, dizendo que eles conjugavam o verbo furtar em todos os tempos, modos e pessoas. Vale a pena transcrever um trecho do seu sermão:
– “Furtam pelo modo infinitivo, porque não tem fim o furtar com o fim do governo, e sempre lá deixam raízes em que se vão continuando os furtos. Esses mesmos modos conjugam por todas as pessoas: porque a primeira pessoa do verbo é a sua, as segundas os seus criados, e as terceiras quantos para isso têm indústria e consciência”.
Segundo Vieira, os governadores ”furtam juntamente por todos os tempos”. Roubam no tempo presente , “que é o seu tempo” durante o triênio em que governam, e roubam ainda ”no pretérito e no futuro”. Roubam no passado perdoando dívidas antigas com o Estado em troca de propinas, “vendendo perdões” e roubam no futuro quando “empenham as rendas e antecipam os contrato, com que tudo, o caído e não caído, lhe vem a cair nas mãos”.
O missionário jesuíta, conselheiro e confessor do rei, prosseguiu: “Finalmente, nos mesmos tempos não lhe escapam os imperfeitos, perfeitos, mais-que-perfeitos, e quaisquer outros, porque furtam, furtavam, furtaram, furtariam e haveriam de furtar mais se mais houvesse. Em suma, que o resumo de toda esta rapante conjugação vem a ser o supino do mesmo verbo: a furtar, para furtar. E quando eles têm conjugado assim toda a voz ativa, e as miseráveis províncias suportado toda a passiva, eles como se tiveram feito grandes serviços tornam carregados de despojos e ricos; e elas ficam roubadas e consumidas”.
Numa atitude audaciosa, padre Vieira chama o próprio rei às suas responsabilidades, concluindo: “Em qualquer parte do mundo se pode verificar o que Isaías diz dos príncipes de Jerusalém: os teus príncipes são companheiros dos ladrões. E por que? São companheiros dos ladrões, porque os dissimulam; são companheiros dos ladrões, porque os consentem; são companheiros dos ladrões, porque lhes dão os postos e os poderes; são companheiros dos ladrões, porque talvez os defendem; e são finalmente, seus companheiros, porque os acompanham e hão de acompanhar ao inferno, onde os mesmos ladrões os levam consigo”.
Os dois novos Estados – Carajás e Tapajós – se criados, significam mais governadores, mais deputados, mais juizes, mais tribunais de contas, mais mordomias, mais assaltos aos cofres públicos. Por isso, o Conselho Indígena dos rios Tapajós e Arapiuns, sediado em Santarém, representando 13 povos de 52 aldeias, se pronunciou criticamente em relação à proposta. Em nota oficial, esclarece: “Os indígenas, os quilombolas e os trabalhadores da região nunca estiveram na frente do movimento pela criação do Estado do Tapajós, porque essa não era sua reivindicação e também porque não eram convidados. Esse movimento foi iniciado e liderado nos últimos anos por políticos. E nós temos aprendido que o que é bom para essa gente dificilmente é bom para nós”.
O professor José Ribamar Bessa Freire coordena o Programa de Estudos dos Povos Indígenas (UERJ), pesquisa no Programa de Pós-Graduação em Memória Social (UNIRIO).
TAPAJÓS E CARAJÁS: FURTO, FURTEI, FURTAREI
Texto do professor José Ribamar Bessa Freire publicado no jornal Diário do Amazonas (09/10/2011)
Essa foi a vaia mais estrondosa e demorada de toda a história da Amazônia. Começou no dia 4 de abril de 1654, em São Luís do Maranhão, com a conjugação do verbo furtar, e continuou ressoando em Belém, num auditório da Universidade Federal do Pará, na última quinta-feira, 6 de outubro, quando estudantes hostilizaram dois deputados federais que defendiam a criação dos estados de Tapajós e Carajás.
A vaia, que atravessou os séculos, só será interrompida no dia 11 de dezembro próximo, quando quase 5 milhões de eleitores paraenses irão às urnas para votar, num plebiscito, se querem ou não a criação dos dois Estados desmembrados do Pará, que ficará reduzido a apenas 17% de seu atual território caso a resposta dos eleitores seja afirmativa.
A proposta de divisão territorial não é nova. Embora o fato não seja ensinado nas escolas, o certo é que Portugal manteve dois estados na América: o Estado do Brasil e o Estado do Maranhão e Grão-Pará, cada um com governador próprio, leis próprias e seu corpo de funcionários.
Somente um ano depois da Independência do Brasil, em agosto de 1823, é que o Grão-Pará aderiu ao estado independente, com ele se unificando.
Pois bem, no século XVII, a proposta era criar mais estados. Os colonos começaram a pressionar o rei de Portugal, D. João IV, para que as capitanias da região norte fossem transformadas em entidades autônomas. O padre Antônio Vieira, conselheiro do rei de Portugal, D. João IV, convenceu o monarca a fazer exatamente o contrário, criando um governo único do Estado do Maranhão e Grão-Pará sediado inicialmente em São Luís e depois em Belém.
Para isso, o missionário jesuíta usou um argumento singular. Ele alegava que se o rei criasse outros estados na Amazônia, teria que nomear mais governadores, o que dificultaria o controle sobre eles. É mais fácil vigiar um ladrão do que dois, escreveu Vieira em carta ao rei, de 4 de abril de 1654: “Digo, senhor, que menos mal será um ladrão que dois, e que mais dificultoso será de achar dois homens de bem que um só”.
Num sermão que pregou na sexta-feira santa, já em Lisboa, perante um auditório onde estavam membros da corte, juízes, ministros e conselheiros da Coroa, o padre Vieira, recém-chegado do Maranhão, acusou os governadores, nomeados por três anos, de enriquecerem durante o triênio, juntamente com seus amigos e apaniguados, dizendo que eles conjugavam o verbo furtar em todos os tempos, modos e pessoas. Vale a pena transcrever um trecho do seu sermão:
– “Furtam pelo modo infinitivo, porque não tem fim o furtar com o fim do governo, e sempre lá deixam raízes em que se vão continuando os furtos. Esses mesmos modos conjugam por todas as pessoas: porque a primeira pessoa do verbo é a sua, as segundas os seus criados, e as terceiras quantos para isso têm indústria e consciência”.
Segundo Vieira, os governadores ”furtam juntamente por todos os tempos”. Roubam no tempo presente , “que é o seu tempo” durante o triênio em que governam, e roubam ainda ”no pretérito e no futuro”. Roubam no passado perdoando dívidas antigas com o Estado em troca de propinas, “vendendo perdões” e roubam no futuro quando “empenham as rendas e antecipam os contrato, com que tudo, o caído e não caído, lhe vem a cair nas mãos”.
O missionário jesuíta, conselheiro e confessor do rei, prosseguiu: “Finalmente, nos mesmos tempos não lhe escapam os imperfeitos, perfeitos, mais-que-perfeitos, e quaisquer outros, porque furtam, furtavam, furtaram, furtariam e haveriam de furtar mais se mais houvesse. Em suma, que o resumo de toda esta rapante conjugação vem a ser o supino do mesmo verbo: a furtar, para furtar. E quando eles têm conjugado assim toda a voz ativa, e as miseráveis províncias suportado toda a passiva, eles como se tiveram feito grandes serviços tornam carregados de despojos e ricos; e elas ficam roubadas e consumidas”.
Numa atitude audaciosa, padre Vieira chama o próprio rei às suas responsabilidades, concluindo: “Em qualquer parte do mundo se pode verificar o que Isaías diz dos príncipes de Jerusalém: os teus príncipes são companheiros dos ladrões. E por que? São companheiros dos ladrões, porque os dissimulam; são companheiros dos ladrões, porque os consentem; são companheiros dos ladrões, porque lhes dão os postos e os poderes; são companheiros dos ladrões, porque talvez os defendem; e são finalmente, seus companheiros, porque os acompanham e hão de acompanhar ao inferno, onde os mesmos ladrões os levam consigo”.
Os dois novos Estados – Carajás e Tapajós – se criados, significam mais governadores, mais deputados, mais juizes, mais tribunais de contas, mais mordomias, mais assaltos aos cofres públicos. Por isso, o Conselho Indígena dos rios Tapajós e Arapiuns, sediado em Santarém, representando 13 povos de 52 aldeias, se pronunciou criticamente em relação à proposta. Em nota oficial, esclarece: “Os indígenas, os quilombolas e os trabalhadores da região nunca estiveram na frente do movimento pela criação do Estado do Tapajós, porque essa não era sua reivindicação e também porque não eram convidados. Esse movimento foi iniciado e liderado nos últimos anos por políticos. E nós temos aprendido que o que é bom para essa gente dificilmente é bom para nós”.
O professor José Ribamar Bessa Freire coordena o Programa de Estudos dos Povos Indígenas (UERJ), pesquisa no Programa de Pós-Graduação em Memória Social (UNIRIO).
sexta-feira, 18 de novembro de 2011
Brasil transparente
Com a lei que promete passar o país a limpo e revelar os porões da ditadura, acredita-se que a memória dos "anos de chumbo" virá à tona e a verdade que está para brotar confirmará anjos e demônios dos 21 anos do regime de exceção.
"Todo país tem o direito de conhecer a sua própria história" é, certamente, uma bonita frase de efeito. Haverá alguém contra tal aspiração? Nem seria preciso responder, mas apenas se as verdades sobre os dois lados antagônicos da sociedade - que muitos supõem serem a sociedade e os militares - puderem ser avaliados com imparcialidade, usando-se pesos iguais.
Revelar os porões do Brasil de 1964 a 1985 pode requerer um instituto de criminalística (um "CSI", como está na moda). Mas é possível que uma parcela interessada dos personagens envolvidos, de ambos os lados, queira ganhar as benesses da história apenas com a claque, assobiando, batendo palmas, com faixas e buzinas. Pra quê investigar, colher impressões digitais, gravar depoimentos e outras provas? Basta o que dizem as "vítimas", entre eles José Genoíno e José Dirceu, dois denunciados por escândalos político-econômicos, de um lado, e dentre os fascistas da ditadura, pelo menos os que sobraram, supostamente pessoas do relacionamento do deputado federal Jair Bolsonaro, no outro extremo. E não esqueçam a própria presidente da República, Dilma Roussef, na ala esquerda, com seus antigos companheiros de armas.
Apesar da Lei da Anistia, hoje com mais de 30 anos, a chegada da onda revisionista parece vir para fazer justiça contra um dos lados e credenciar, pelos livros escolares, as barbas dos novos santos do marxismo latino-americano. Uma investigação autônoma, porém, terá de ser, necessariamente, isenta e equilibrada. Mas quem está preocupado com isto? Importante mesmo é que apenas uma versão da história predomine. E ninguém duvida de qual lado terá sua versão como a única expressão da verdade.
"Todo país tem o direito de conhecer a sua própria história" é, certamente, uma bonita frase de efeito. Haverá alguém contra tal aspiração? Nem seria preciso responder, mas apenas se as verdades sobre os dois lados antagônicos da sociedade - que muitos supõem serem a sociedade e os militares - puderem ser avaliados com imparcialidade, usando-se pesos iguais.
Revelar os porões do Brasil de 1964 a 1985 pode requerer um instituto de criminalística (um "CSI", como está na moda). Mas é possível que uma parcela interessada dos personagens envolvidos, de ambos os lados, queira ganhar as benesses da história apenas com a claque, assobiando, batendo palmas, com faixas e buzinas. Pra quê investigar, colher impressões digitais, gravar depoimentos e outras provas? Basta o que dizem as "vítimas", entre eles José Genoíno e José Dirceu, dois denunciados por escândalos político-econômicos, de um lado, e dentre os fascistas da ditadura, pelo menos os que sobraram, supostamente pessoas do relacionamento do deputado federal Jair Bolsonaro, no outro extremo. E não esqueçam a própria presidente da República, Dilma Roussef, na ala esquerda, com seus antigos companheiros de armas.
Apesar da Lei da Anistia, hoje com mais de 30 anos, a chegada da onda revisionista parece vir para fazer justiça contra um dos lados e credenciar, pelos livros escolares, as barbas dos novos santos do marxismo latino-americano. Uma investigação autônoma, porém, terá de ser, necessariamente, isenta e equilibrada. Mas quem está preocupado com isto? Importante mesmo é que apenas uma versão da história predomine. E ninguém duvida de qual lado terá sua versão como a única expressão da verdade.
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