Já que alguns amigos revelaram apreciar esta prosa atribuída ao escritor luso Fernando Pessoa, transcrevo-a.
PALCO DA VIDA
Posso ter defeitos, viver ansioso e ficar irritado algumas vezes mas, não esqueço de que minha vida é a maior empresa do mundo, e posso evitar que ela vá à falência.
Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver apesar de todos os desafios, incompreensões e períodos de crise. Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e se tornar um autor da própria história.
É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar um oásis no recôndito da sua alma.
É agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida. Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos. É saber falar de si mesmo. É ter coragem para ouvir um "não". É ter segurança para receber uma crítica, mesmo que injusta.
Pedras no caminho?
Guardo todas, um dia vou construir um castelo...
(Fernando Pessoa - Lisboa, 13.06.1888 — Lisboa, 30.11.1935)
Toda técnica só é válida quando promove o ser humano em conexão com Deus, com o semelhante e com o ecossistema em que vive. Qualquer cultura só tem valor autêntico quando aperfeiçoa as pessoas para estas interagirem assim.
segunda-feira, 25 de outubro de 2010
quarta-feira, 20 de outubro de 2010
Serra, desculpa! Valeu?
Vão dizer que é para tirar vantagem da imagem de "coitadinho". Não importa. Hoje, em minha cidade natal, o candidato oposicionista José Serra (PSDB) foi agredido enquanto fazia corpo a corpo eleitoral. Ainda não sei - e nem quero saber - quem o agrediu, só sei que foi no Rio de Janeiro.
Por isso, eu, carioca, quero pedir desculpas ao senhor José Serra. Não votei nele, nem lhe tenho simpatias, mas em meu próprio nome e em nome de milhões de cidadãos desta terra luminosa que, pela Providência, é lugar de tantas histórias gloriosas e outras nem tanto, mas que é, queiram ou não, nevrálgica na vida brasileira, é que eu me desculpo pelo acontecido nesta quarta-feira.
É preciso que se diga ainda que a maioria dos cariocas, gente de bem, ordeira e civilizada, não pactua com a barbárie e que, apesar do ocorrido, qualquer pessoa pode vir à nossa cidade, que não obstante seus variados problemas e mazelas, ainda é no coração de toda gente a Cidade Maravilhosa.
É verdade que ainda lutamos contra excrecências sociais que brotam qual ervas daninhas de distorções sociais, políticas e econômicas. Esta é uma terra de contradições, de virtudes abortadas e pecados à flor da pele, caótica e anárquica. Mas é também uma terra de generosidades, de bons vizinhos, de gente solidária e que faz graça de suas misérias e vai vivendo apesar dos tombos que leva amiúde. É um lugar onde a bandidagem é capaz até de esquecer que é bandida quando
alguém diz "- Oh! Glória!". Que me perdoem bairristas de outros lugares, aqui é o melhor lugar do mundo. Na capital da cordialidade, sua gente é gentil. Olhem nas ruas e confiram que "ela é carioca, ela é carioca, basta o jeitinho dela andar..."
Nossas famílias querem inclusão; não queremos ser tratados como suspeitos do tráfico nem da violência. Nossa gente precisa é de justiça, de educação, de saúde. E da maior de todas as políticas públicas: a gentileza.
No Rio, seja Dilma ou Serra, direita, centro ou esquerda, os cariocas querem paz, amor, ordem e progresso.
Por isso, eu, carioca, quero pedir desculpas ao senhor José Serra. Não votei nele, nem lhe tenho simpatias, mas em meu próprio nome e em nome de milhões de cidadãos desta terra luminosa que, pela Providência, é lugar de tantas histórias gloriosas e outras nem tanto, mas que é, queiram ou não, nevrálgica na vida brasileira, é que eu me desculpo pelo acontecido nesta quarta-feira.
É preciso que se diga ainda que a maioria dos cariocas, gente de bem, ordeira e civilizada, não pactua com a barbárie e que, apesar do ocorrido, qualquer pessoa pode vir à nossa cidade, que não obstante seus variados problemas e mazelas, ainda é no coração de toda gente a Cidade Maravilhosa.
É verdade que ainda lutamos contra excrecências sociais que brotam qual ervas daninhas de distorções sociais, políticas e econômicas. Esta é uma terra de contradições, de virtudes abortadas e pecados à flor da pele, caótica e anárquica. Mas é também uma terra de generosidades, de bons vizinhos, de gente solidária e que faz graça de suas misérias e vai vivendo apesar dos tombos que leva amiúde. É um lugar onde a bandidagem é capaz até de esquecer que é bandida quando
alguém diz "- Oh! Glória!". Que me perdoem bairristas de outros lugares, aqui é o melhor lugar do mundo. Na capital da cordialidade, sua gente é gentil. Olhem nas ruas e confiram que "ela é carioca, ela é carioca, basta o jeitinho dela andar..."
Nossas famílias querem inclusão; não queremos ser tratados como suspeitos do tráfico nem da violência. Nossa gente precisa é de justiça, de educação, de saúde. E da maior de todas as políticas públicas: a gentileza.
No Rio, seja Dilma ou Serra, direita, centro ou esquerda, os cariocas querem paz, amor, ordem e progresso.
sexta-feira, 15 de outubro de 2010
Uma nova mitologia latino-americana
Vivendo e aprendendo. Essa história chilena dá-nos muitas lições.
Destaco que há um paralelo entre a região de Atacama (que mantém algumas correlações com a noção de tártaro, inferno, com terrenos nus, pedregosos, salinos) e certas paisagens da Grécia e ilhas do Egeu, com seus cenários vulcânicos, dos quais a mitologia narra coisas fantásticas que permaneceram como forma para uma vasta explicação da vida e símiles filosóficas que estão espalhadas por todas as áreas do conhecimento.
Sabemos que, em geral, os povos herdeiros de antigas civilizações (gregos, persas, chineses, japoneses etc) tiveram séculos de enfrentamento com as ameaças climáticas e catástrofes naturais, estando na frente de outros povos mais recentes (o Brasil, por exemplo). À exceção, no continente americano, dos herdeiros de antigas civilizações (maias, astecas, incas etc.), que foram subjugadas e dizimadas pelo colonialismo europeu, aqueles primeiros desenvolveram saberes refinados que só puderam ser atingidos exatamente porque lutaram muito pela própria sobrevivência, sendo provados de todos os modos e legando ao mundo histórias narradas, claro que sem cientificismo, mas mitologias que nos encantam e ilustram pelas alegorias com as dificuldades, perdas e ganhos de cada um de nós no dia-a-dia da modernidade.
Curiosamente, na cultura ibero-americana, destacaram-se seis escritores (contadores de histórias) que brotaram justamente das culturas em que há traços remanescentes das antigas civilizações pré-colombianas, com o prêmio Nobel de literatura: Gabriela Mistral (Chile, 1945), Miguel Ángel Asturias (Guatemala, 1967), Pablo Neruda (Chile, 1971), Gabriel García Márquez (Colômbia, 1982), Octavio Paz (México, 1990) e agora, Mario Vargas Llosa (Peru, 2010). O Brasil, a mais forte economia latino-americana, ainda não emplacou um Nobel, embora Josué de Castro, Herbert de Souza (Betinho) e Milton Santos o merecessem.
A saga dos 33 mineiros de Copiapó mobilizou, no mesmo ano em que o país foi arrasado por um grande terremoto, os meios de comunicação do mundo inteiro para contar uma história, que até se pode chamar de milagrosa, de pessoas singelas e carregadas de sua humanidade. Isso deu notícia, vai dar livro e versões para cinema e TV.
Aprendi que, em vez de valorizarmos a terra que não tem terremotos, maremotos nem furacões, devemos mesmo é valorizar o gênio, a sagacidade, a resistência e a resiliência de um povo que acredita que, sim, é possível superar suas desgraças e tem a altivez de não aceitar ser encabrestado por quem quer que seja, venha de dentro ou de fora!
Nosso papel é influir na formação do caráter desse povo jovem com os princípios do Evangelho, da graça, do amor, da solidariedade e ajudar a modelar o perfil da raça brasileira, sem amputá-la de sua coragem, determinação e consciência do papel a desempenhar.
No resto, parabéns aos chilenos. Eles têm sabido superar os modelos autoritários, consolidar sua economia, fortalecer o papel das instituições e descobrir o caminho da ascensão civilizatória no concerto das nações.
quarta-feira, 6 de outubro de 2010
Do segundo turno à alternância
Contudo, Nínive tem mais de cento e vinte mil pessoas que não sabem nem distinguir a mão direita da esquerda, além de muitos rebanhos. Não deveria eu ter pena dessa grande cidade?
(Jonas 4.11)
Houve um tempo romântico em que, para ocupar-se cadeira de parlamentar, o sujeito tinha de exibir moral ilibada e extensa folha de serviços prestados à sociedade. Também houve um tempo em que era praxe os partidos políticos se alternarem no poder, num revezamento que dava oportunidades iguais às agremiações políticas para apresentar o seu estilo de governança e demonstrar suas virtudes pela indicação de um monarca de barbas grisalhas.
O tempo passou e, contrariando certa tese que diz que as coisas se aperfeiçoam quando o tempo passa, a política brasileira eleva ao degrau mais alto do legislativo nacional gente que tem intimidade com a telinha ou com a bola: Tiririca, Romário, Jean Willys entre outros. E quase acaba diplomando candidatas honoráveis tais quais a ‘Mulher Pera’, a Mulher ‘Melão’ e Tati Quebra Barraco. Se no passado houve barões do café, voto de cabresto, coronéis do cacau, imaginava-se que o século 21 seria bem diferente.
Passamos mais uma eleição sem lideranças expressivas nem nomes de valor inquestionável. Sobraram nulidades, bizarrices e mistificadores de todo tipo. No entanto, dá para aprender algumas lições valiosas.
Lula, por exemplo, pertence a um panteão sagrado e não pode ser abalado por críticas de pessoas mortais. Mesmo assim, sua candidata, Dilma, não encaçapou no primeiro turno.
A ‘verde’ Marina foi providencialmente a peça que desestabilizou o “já ganhou” da candidata vermelha e o povo escolheu o segundo turno como candidato. Enquanto isso, Serra, o ‘tucano’ da campanha fraca, foi abençoado com uma segunda oportunidade, indo para o ‘tudo ou nada’.
Em novembro, a decisão pode confirmar o sucesso do uso da máquina governamental pró Dilma ou, para melhorar a democracia, os brasileiros e brasileiras podem dar preferência à alternância no poder. Esta sim, uma opção menos de aprovação de José Serra e o estilo peessedebista de governar do que o desejo sincero por um arejamento no Planalto.
Votar na alternância não é o mesmo que rejeitar Dilma ou o PT. Muito menos confessar-se apaixonado pelo charme de José Serra, FHC e outros compadres social-democratas. Alternar, neste caso, é dar ao PT a oportunidade, que o imediatismo do poder não lhe permite enxergar, de se reciclar, de retornar mais humilde e amadurecido em 2014.
Se o voto confirmar mais um período petista no Executivo federal, o ‘circo’ que conta em seu elenco com o palhaço Tiririca vai armar sua lona em Brasília e, “ninguém disse, ‘seu’ Zé”, mas digo eu: fará um espetáculo sem graça, com feras fora de controle a devorar os direitos e liberdades individuais do respeitável público, que às vezes não sabe como usar a mão esquerda nem a direita para teclar o botão verde da urna eletrônica porque não sabe que é o povo quem manda no Estado.
LUCIANO P. VERGARA
(Jonas 4.11)
Houve um tempo romântico em que, para ocupar-se cadeira de parlamentar, o sujeito tinha de exibir moral ilibada e extensa folha de serviços prestados à sociedade. Também houve um tempo em que era praxe os partidos políticos se alternarem no poder, num revezamento que dava oportunidades iguais às agremiações políticas para apresentar o seu estilo de governança e demonstrar suas virtudes pela indicação de um monarca de barbas grisalhas.
O tempo passou e, contrariando certa tese que diz que as coisas se aperfeiçoam quando o tempo passa, a política brasileira eleva ao degrau mais alto do legislativo nacional gente que tem intimidade com a telinha ou com a bola: Tiririca, Romário, Jean Willys entre outros. E quase acaba diplomando candidatas honoráveis tais quais a ‘Mulher Pera’, a Mulher ‘Melão’ e Tati Quebra Barraco. Se no passado houve barões do café, voto de cabresto, coronéis do cacau, imaginava-se que o século 21 seria bem diferente.
Passamos mais uma eleição sem lideranças expressivas nem nomes de valor inquestionável. Sobraram nulidades, bizarrices e mistificadores de todo tipo. No entanto, dá para aprender algumas lições valiosas.
Lula, por exemplo, pertence a um panteão sagrado e não pode ser abalado por críticas de pessoas mortais. Mesmo assim, sua candidata, Dilma, não encaçapou no primeiro turno.
A ‘verde’ Marina foi providencialmente a peça que desestabilizou o “já ganhou” da candidata vermelha e o povo escolheu o segundo turno como candidato. Enquanto isso, Serra, o ‘tucano’ da campanha fraca, foi abençoado com uma segunda oportunidade, indo para o ‘tudo ou nada’.
Em novembro, a decisão pode confirmar o sucesso do uso da máquina governamental pró Dilma ou, para melhorar a democracia, os brasileiros e brasileiras podem dar preferência à alternância no poder. Esta sim, uma opção menos de aprovação de José Serra e o estilo peessedebista de governar do que o desejo sincero por um arejamento no Planalto.
Votar na alternância não é o mesmo que rejeitar Dilma ou o PT. Muito menos confessar-se apaixonado pelo charme de José Serra, FHC e outros compadres social-democratas. Alternar, neste caso, é dar ao PT a oportunidade, que o imediatismo do poder não lhe permite enxergar, de se reciclar, de retornar mais humilde e amadurecido em 2014.
Se o voto confirmar mais um período petista no Executivo federal, o ‘circo’ que conta em seu elenco com o palhaço Tiririca vai armar sua lona em Brasília e, “ninguém disse, ‘seu’ Zé”, mas digo eu: fará um espetáculo sem graça, com feras fora de controle a devorar os direitos e liberdades individuais do respeitável público, que às vezes não sabe como usar a mão esquerda nem a direita para teclar o botão verde da urna eletrônica porque não sabe que é o povo quem manda no Estado.
LUCIANO P. VERGARA
quinta-feira, 16 de setembro de 2010
Alguém sabe onde está o fusquinha do irmão André?
Em O Globo da quinta-feira, 16.09.2010, o editorial abordava a postura antidemocrática que o ex-deputado e ex-ministro José Dirceu, cassado por causa de seu envolvimento no escândalo do “Mensalão”, vem demonstrando quanto ao papel da imprensa. Na opinião do jornal Dirceu está vivamente interessado em concretizar uma antiga proposta do Partido dos Trabalhadores de restringir o peso da imprensa.
A tese do editorial é que o PT, desde que chegou ao poder, não esconde que, à semelhança do casal Kirchner, na Argentina, e o mandatário venezuelano Hugo Chávez, sem excluir os outros potentados latinoamericanos com tendência ao autoritarismo de equerda, o governo deve limitar o número e o tamanho de empresas de comunicação, por meio de regulações acionárias no mercado e intervenções de um comitê regulador sobre os diversos conteúdos.
A tese pode ser ou não a expressão da verdade. Mas a intenção de controlar a imprensa com mão de ferro é uma realidade que vem assombrando toda a América do Sul desde meados desta década. A se confirmar a tese, irá consubstanciar-se o primeiro império sindical do planeta, um fruto plantado pelas velhas burocracias bolcheviques que chega a vingar no hemisfério sul.
Se tal acontecer (e não estamos tão longe disso!), a imprensa não será a única a ser amordaçada. É apenas a primeira. A bola da vez passaria então às igrejas.
Imprensa e igreja são versões do mesmo sentimento. Ambas estão em busca da verdade. Ambas se dedicam a proclamar, a anunciar, a abrir os sentidos da sociedade. Ambas incomodam as aspirações hegemônicas com suas denúncias proféticas, vaticinando tendências e resultados de curto, médio e longo prazos. Imprensa e igreja, embora tenham um parentesco complicado que as leva, muitas vezes, a análises e propósitos conflitantes, têm entre si a mesma essência marcada pela indignação contra as injustiças.
Não à toa, João Wesley enxergava a utilidade do binômio Bíblia-jornal e tanto recomendava a seus pregadores que se atualizassem pela leitura de informativos quanto se definia como “homem de um único livro” (a Bíblia). Apesar das tensões do parentesco, Imprensa e Evangelho não são excludentes, mas complementares. A Igreja genuína proclama a verdade revelada, a imprensa séria mostra a verdade dos fatos. Uma, fala com amor e cuidado pastoral, a outra, com incisividade e sem amarras litúrgicas.
Por isso, aqueles que ambicionam o poder acima do controle das instituições detestam os conselhos e advertências das duas vozes da consciência social presentes na religião e na imprensa. Se hoje a imprensa é atacada e impedida de cumprir o seu papel sagrado sem que a sociedade reaja a esse golpe, amanhã será a vez da religião ser agredida e silenciada.
A permanência de um superpartido no poder leva a efeito o de que José Dirceu foi acusado: a “mexicanização” (referência às mais de sete décadas de pontificado do Partido Republicano Institucional no México). O Brasil, maior país católico, que é também a terra de vertiginoso crescimento evangélico, corre o risco de “sovietização”. Assim foi com as repúblicas da “Mãe Rússia”, que amargaram 70 anos de hipercontrole comunista retrógrado. Idem com Judá, no passado, submetido a 70 anos de cativeiro em Babilônia.
Prova de que há um plano de alteração na ordem mundial, de mudança de eixos geopolíticos pela inversão social, marcada pela rebeldia e pelo descrédito nas instituições, é o avanço da diluição moral, intelectual e política a que assistimos na América Latina. Por que nesta região? Porque ela é frágil cultural e politicamente, mas tem uma razoável base econômica que daria a sustentabilidade que Che Guevara e os soviéticos enxergaram e quiseram trazer para o seu lado. E que melhor hora do que esta, quando a patrulha ideológica norte-americana baixa a guarda em função das crises moral e econômica dos EUA, com a diminuição de sua hegemonia para novos e poderosos agentes?
Caso o irmão André (o “contrabandista de Deus”) queira vender o seu fusquinha carregado de bíblias, vale uma boa oferta. Pode ser que ele volte à ativa no Brasil.
terça-feira, 7 de setembro de 2010
O nosso nome é Francenildo
Da luta entre o gigante guerreiro Golias e o menino Davi, cedo aprendemos que Deus ajudou o menino a vencer o primeiro. Aprendemos a história da luta entre o rude e abusado filisteu e o ruivo guri que fedia a curral de ovelhas na Bíblia (primeiro livro de Samuel, capítulo 17). A lição é que Deus se coloca ao lado de quem nele confia e não se estriba em suas próprias fama, força e habilidade.
A eleição de 2010 traz de novo a cena preservada por um cronista de Samuel. Não tem muito tempo, apareceu por aqui durante o primeiro mandato de Luís Inácio Lula da Silva. Novamente, ela conecta a presente quadra da vida brasileira ao panorama bíblico e expõe gravíssimo risco à brava gente.
Não! Não tem nada a ver com a filha do tucano José Serra – Verônica – cujo sigilo na Receita Federal, em 2009, foi o prato de duas invasões de arapongas de estrelinha vermelha. Eu me refiro a outra coisa.
Lembra que o então ministro da Fazenda, Antônio Pallocci, em 2006, sustentou uma polêmica com um caseiro piauiense, de nome Francenildo, que supostamente teria recebido dinheiro para caluniar o ministro e várias personalidades pela suspeita de uso irregular de uma mansão no Lago Paranoá, em Brasília, para conchavos políticos? Pois então, o caso de Verônica é, simplesmente, a tampa da Caixa de Pandora, da qual procederão as mais malignas catástrofes, se nada for feito para fechá-la a tempo.
Muito mais que atingir a débil candidatura do PSDB à presidência ou demais caciques social-democratas cujos segredos foram igualmente violados, assusta o fato de os “filisteus” do politburo trabalhista ensaiarem o que farão à indiazada toda por longo tempo, caso a estrela do PT não se desgrude do Planalto para oxigenar a alternância do poder.
Ora, se paus mandados bolcheviques entram no sistema da Receita e passeiam pelo sigilo fiscal de personalidades, do tipo “cachorro grande”, da política nacional, que é a gente do naipe e da visibilidade desses graúdos, o que não farão aos anônimos assalariados e pequenos e médios empreendedores distribuídos pelas alta e baixa Classe Média, que são os maiores pagadores de impostos e quem movimenta boa parte da renda socialmente relevante do país? O golpe é tão brutal que põe sob suspeita toda a máquina fiscal.
De vários cantos da América Latina, em laboratórios de sociedades do medo, como Cuba, Venezuela, Bolívia e, recentemente, Argentina e Equador, prodigalizam-se episódios de raro retorno às trevas do autoritarismo sindical leninista. A Classe Média é lançada no colo da esquerda retrógrada pelo medo do pólo oposto, onde empresários conservadores e magnatas da vida rural ainda guardam o bafo das ditaduras de direita. Sementes que hibernaram dos anos 1960-70 e a Guerra Fria desabrocham no Paraguai, Uruguai e quiçá no Peru, com novos mandatários fichados nos anais da repressão por terem atuado na clandestinidade.
O ímpio gigante será um desafio hercúleo a vencer se o pequeno “Davi” não se dispuser a enfrentar o monumental mostrengo. Pallocci está na cúpula da campanha de Dilma Roussef e, junto com os caciques petistas, sua trajetória novamente coincide com a arapongagem governamental e a figura do “estado Leviatã”, concebida recentemente por João Ubaldo Ribeiro (O Leviatã pega, O Globo, 08/08/2010).
Calma, porém. A lição tirada da Bíblia mostra a vitória da criança ingênua mas resoluta em sua confiança em Deus. No caso brasileiro, “Davi” é Francenildo, o herói do povo, o “Zé” que dos poderosos se vinga com as mãos limpas e com a verdade, pois quem não deve não teme. E, diante da definitiva ameaça da versão verde-e-amarela do estado policial, no qual faltará o abrigo das liberdades individuais, do direito à preservação de dados pessoais e dos assuntos da vida íntima perante a indiscrição do Grande Irmão (pensou em 1984, de George Orwell?), só nos restará dizer que doravante todas as pessoas do povo se chamarão Francenildo.
A eleição de 2010 traz de novo a cena preservada por um cronista de Samuel. Não tem muito tempo, apareceu por aqui durante o primeiro mandato de Luís Inácio Lula da Silva. Novamente, ela conecta a presente quadra da vida brasileira ao panorama bíblico e expõe gravíssimo risco à brava gente.
Não! Não tem nada a ver com a filha do tucano José Serra – Verônica – cujo sigilo na Receita Federal, em 2009, foi o prato de duas invasões de arapongas de estrelinha vermelha. Eu me refiro a outra coisa.
Lembra que o então ministro da Fazenda, Antônio Pallocci, em 2006, sustentou uma polêmica com um caseiro piauiense, de nome Francenildo, que supostamente teria recebido dinheiro para caluniar o ministro e várias personalidades pela suspeita de uso irregular de uma mansão no Lago Paranoá, em Brasília, para conchavos políticos? Pois então, o caso de Verônica é, simplesmente, a tampa da Caixa de Pandora, da qual procederão as mais malignas catástrofes, se nada for feito para fechá-la a tempo.
Muito mais que atingir a débil candidatura do PSDB à presidência ou demais caciques social-democratas cujos segredos foram igualmente violados, assusta o fato de os “filisteus” do politburo trabalhista ensaiarem o que farão à indiazada toda por longo tempo, caso a estrela do PT não se desgrude do Planalto para oxigenar a alternância do poder.
Ora, se paus mandados bolcheviques entram no sistema da Receita e passeiam pelo sigilo fiscal de personalidades, do tipo “cachorro grande”, da política nacional, que é a gente do naipe e da visibilidade desses graúdos, o que não farão aos anônimos assalariados e pequenos e médios empreendedores distribuídos pelas alta e baixa Classe Média, que são os maiores pagadores de impostos e quem movimenta boa parte da renda socialmente relevante do país? O golpe é tão brutal que põe sob suspeita toda a máquina fiscal.
De vários cantos da América Latina, em laboratórios de sociedades do medo, como Cuba, Venezuela, Bolívia e, recentemente, Argentina e Equador, prodigalizam-se episódios de raro retorno às trevas do autoritarismo sindical leninista. A Classe Média é lançada no colo da esquerda retrógrada pelo medo do pólo oposto, onde empresários conservadores e magnatas da vida rural ainda guardam o bafo das ditaduras de direita. Sementes que hibernaram dos anos 1960-70 e a Guerra Fria desabrocham no Paraguai, Uruguai e quiçá no Peru, com novos mandatários fichados nos anais da repressão por terem atuado na clandestinidade.
O ímpio gigante será um desafio hercúleo a vencer se o pequeno “Davi” não se dispuser a enfrentar o monumental mostrengo. Pallocci está na cúpula da campanha de Dilma Roussef e, junto com os caciques petistas, sua trajetória novamente coincide com a arapongagem governamental e a figura do “estado Leviatã”, concebida recentemente por João Ubaldo Ribeiro (O Leviatã pega, O Globo, 08/08/2010).
Calma, porém. A lição tirada da Bíblia mostra a vitória da criança ingênua mas resoluta em sua confiança em Deus. No caso brasileiro, “Davi” é Francenildo, o herói do povo, o “Zé” que dos poderosos se vinga com as mãos limpas e com a verdade, pois quem não deve não teme. E, diante da definitiva ameaça da versão verde-e-amarela do estado policial, no qual faltará o abrigo das liberdades individuais, do direito à preservação de dados pessoais e dos assuntos da vida íntima perante a indiscrição do Grande Irmão (pensou em 1984, de George Orwell?), só nos restará dizer que doravante todas as pessoas do povo se chamarão Francenildo.
quinta-feira, 15 de julho de 2010
Pé no chão
Luciano P. Vergara
Esta terra em que pisa o meu pé é, sob muitos aspectos, uma terra vã e sem valor, não é de ouro nem são preciosos os seus torrões. Sob outro modo de olhar, ela é mais que preciosa. É pátria, é solo que serve de apoio, sobre o qual está a minha casa, terra que me viu nascer e que, cessada a vida chã, há de acolher os restos do meu corpo. É na terra que se planta o alimento e sobre ele corre a água que sacia a sede de todos. É dela que vem o minério que modifica o dia-a-dia, que faz a riqueza de muitos e a loucura de gananciosos. É sobre ela que lutam soldados e mourejam grupos econômicos. Sobre esta terra sonhamos, amamos, odiamos e existimos.
No chão em que rola a bola, espetáculo e delírio de multidões, nem mesmo a grama mais cientificamente tratada esconde a aridez de um solo que tanto sangue já enxugou. A poeira levantada por manadas selvagens ou pela meninada negra que se agita atrás de uma suja bola feita de meia esconde contrastes que separam interesses milionários da extração mineral e o trânsito de pessoas comuns no varejo dos amontoamentos não urbanizados. A jabulani vai de um lado ao outro – de pé em pé – sem ligar se é campeão ou perdedor.
Enquanto a poeira sobe, a pelota pode ir, num passe, do pé de um moleque que se mete em buracos, a buscar brilhantes no interior da África, ao pé de um refugiado da fome e da guerra nos campos de chefes tribais. Ou pode ir do pé de um polígamo obá centro-africano ao pé de um pirata nos arrabais de Mogadíscio.
“Tira as sandálias dos pés!” – ecoa a voz reivindicadora, sobre um solo qualquer, da santidade do chão pisado pelo Eterno. Do outro lado do Mar Vermelho, atrás do fugitivo hebreu, salvo das águas e príncipe egípcio descoroado, um povo chora enquanto amassa, com os pés, a matéria prima que alimenta a expansão das moradas, a ocupação da terra, adensamento da metrópole. Ocultos dos palácios e debruçados sobre formas de tijolos, gemem os escravos da especulação, explorados pela vilania dos donos da terra “– Até quando, Adonai?”. E o soberano dos céus, Yahweh, determina ao pastor de Midiã: “– Volve, Moisés, o teu rosto para aquela terra e volta a ela para dizer àquele que oprime a minha herança: – Deixa o meu povo ir”.
Sobre o mesmo solo do antigo apartheid , novamente rola a esfera, para deleite de negros, brancos e toda raça de gente. Enquanto ela descreve nos estádios o seu destino, a poeira continua a subir, seja das minas e garimpos, seja dos terreiros de chão pisado, seja dos tijolos da humilhação. Seus heróis podem usar chuteiras milionárias ou óculos cravejados de jóias. Posam para o brilho que espoca das câmeras de lentes grandes. Na arquibancada, quais macacos vestidos e pintados de modo jocoso, todos brindam a vitória de seus campeões e a derrota dos adversários.
Inútil é o choro dos perdedores. Voltarão a enfrentar outros rivais, tentando justificar, atrás da bola hipnótica, seu fútil aziago. Fúteis, embolam-se em um jogo inexplicável, que tenta repetir a vida no gramado, para que as coisas permaneçam como sempre foram: na arena, gladiadores, na tribuna, governadores.
A Copa do Mundo aproxima os contrários e disfarça outras disputas fora de campo. Sobe a poeira. Mas o dinheiro é bom para todos. Cardumes de peixes variados, dilaceram o campeonato ludopédico: os grandes, com suas grandes bocas, amealham nacos maiores; os pequenos pegam o que sobra. Fora do estádio, conflitos raciais e religiosos abrem chagas e não há o apito de um árbitro. Manchada de sangue, ergue-se uma bandeira, mas ela ainda não anuncia justiça. Travas da barbárie, com traços de petróleo, diamantes e escravidão, fazem sulcos hemorrágicos sobre a pele de ébano. E pés duros e rachados – pés-de-moleque – que pisam a grama cirurgicamente aplicada sobre a base terraplanada sustentam corpos inertes, cabeças zonzas a girar olhos embasbacados em meio à massa multirracial. Spots, telões, placares luminosos preenchem um panorama surreal e trombetas infernais “vuvuzelam” os ouvidos mais calejados. Abafam-se os gritos da menina circuncidada e o esgüelar do gurizinho que perambulou no campo minado.
África, que é do Sul, do Saara, do “chifre”, das ilhas ocidentais; que é muçulmana, animista, cristã... o que mais? Mãe-chão de tantos povos e culturas, antiga porção do Éden. Testemunhou civilizações, reis e peões e, hoje, é o torrão de uma infinidade de pobres. Mas não lhe faltam opulentos – poucos, é verdade, mas que concentram força e riqueza pelo uso da truculência, do vício e da magia. Temidos, controlam tribos e países por meio de capangas e tropas. Alguém vê a poeira subir?
“Que formosos são sobre os montes os pés do que anuncia as boas novas, que faz ouvir a paz, que anuncia coisas boas, que faz ouvir a salvação...!” – canta o poeta de Deus. No entanto, há pés que se especializaram na ligeireza, que lépidos e tocando apenas a superfície, não marcham com firmeza para o compromisso. São errantes e sonsos. No gramado do campo, os pés da agilidade existem para a exibição, não concretizam coisa alguma, o seu vínculo é com o espetáculo que, embora aproxime e confraternize, rara vez está a serviço de uma causa maior. Não sobem a um monte, mas na plana maciez de um palco verde, mais alienam do que integram. Vidas a eles se entregam, submissas e obcecadas ao ponto de por eles matar ou morrer.
Excepcionalmente, uma cabeça que se apóia sobre os pés de chuteiras reúne elementos para algo mais que a partida e a comemoração. Jogar e festejar são, muitas vezes, as únicas coisas que seus sujeitos alcançam fazer. São em tudo fracassados, menos entre os limites do campo. Vêm, muitos deles, de origem obscura e poucos percebem o quão luminosos poderiam se tornar. Não é assim com o goleiro herói transmutado em monstro carniceiro? Não foi assim com aquele que, sem brios, ostentava o título de “animal”?
Justiça seja feita, em todas as modalidades, a sedução da popularidade, riqueza e poder fora de controle podem entorpecer; não é algo exclusivo desta ou daquela atividade. Mas eis que o povo consagra determinados heróis, os quais, não são capazes de discernir a oportunidade que a vida lhes deu para servirem aos demais. E assim, vivem para si mesmos sem jamais se satisfazer.
O quanto implica colocar o pé no chão? Em conquistas muito além do que podemos imaginar. “Todo lugar que pisar a planta do vosso pé... será vosso”. Se a cada evento da humanidade, renova-se a expectativa de que, depois dele, tudo ficará melhor que dantes, que resultados se devem esperar de intermináveis horas e bilhões investidos em rolar a bola? Não importa se Dunga ou Diego ficam ou saem. Ou que destaque será homenageado. A pergunta a ser feita é: Com tudo isso, em que o mundo ficou melhor para as pessoas? O verdadeiro time dos sonhos é constituído daqueles que, com o pé no chão, vão “andando e chorando enquanto semeiam”, pois “voltarão com júbilo, trazendo os seus feixes”.
Esta terra em que pisa o meu pé é, sob muitos aspectos, uma terra vã e sem valor, não é de ouro nem são preciosos os seus torrões. Sob outro modo de olhar, ela é mais que preciosa. É pátria, é solo que serve de apoio, sobre o qual está a minha casa, terra que me viu nascer e que, cessada a vida chã, há de acolher os restos do meu corpo. É na terra que se planta o alimento e sobre ele corre a água que sacia a sede de todos. É dela que vem o minério que modifica o dia-a-dia, que faz a riqueza de muitos e a loucura de gananciosos. É sobre ela que lutam soldados e mourejam grupos econômicos. Sobre esta terra sonhamos, amamos, odiamos e existimos.
No chão em que rola a bola, espetáculo e delírio de multidões, nem mesmo a grama mais cientificamente tratada esconde a aridez de um solo que tanto sangue já enxugou. A poeira levantada por manadas selvagens ou pela meninada negra que se agita atrás de uma suja bola feita de meia esconde contrastes que separam interesses milionários da extração mineral e o trânsito de pessoas comuns no varejo dos amontoamentos não urbanizados. A jabulani vai de um lado ao outro – de pé em pé – sem ligar se é campeão ou perdedor.
Enquanto a poeira sobe, a pelota pode ir, num passe, do pé de um moleque que se mete em buracos, a buscar brilhantes no interior da África, ao pé de um refugiado da fome e da guerra nos campos de chefes tribais. Ou pode ir do pé de um polígamo obá centro-africano ao pé de um pirata nos arrabais de Mogadíscio.
“Tira as sandálias dos pés!” – ecoa a voz reivindicadora, sobre um solo qualquer, da santidade do chão pisado pelo Eterno. Do outro lado do Mar Vermelho, atrás do fugitivo hebreu, salvo das águas e príncipe egípcio descoroado, um povo chora enquanto amassa, com os pés, a matéria prima que alimenta a expansão das moradas, a ocupação da terra, adensamento da metrópole. Ocultos dos palácios e debruçados sobre formas de tijolos, gemem os escravos da especulação, explorados pela vilania dos donos da terra “– Até quando, Adonai?”. E o soberano dos céus, Yahweh, determina ao pastor de Midiã: “– Volve, Moisés, o teu rosto para aquela terra e volta a ela para dizer àquele que oprime a minha herança: – Deixa o meu povo ir”.
Sobre o mesmo solo do antigo apartheid , novamente rola a esfera, para deleite de negros, brancos e toda raça de gente. Enquanto ela descreve nos estádios o seu destino, a poeira continua a subir, seja das minas e garimpos, seja dos terreiros de chão pisado, seja dos tijolos da humilhação. Seus heróis podem usar chuteiras milionárias ou óculos cravejados de jóias. Posam para o brilho que espoca das câmeras de lentes grandes. Na arquibancada, quais macacos vestidos e pintados de modo jocoso, todos brindam a vitória de seus campeões e a derrota dos adversários.
Inútil é o choro dos perdedores. Voltarão a enfrentar outros rivais, tentando justificar, atrás da bola hipnótica, seu fútil aziago. Fúteis, embolam-se em um jogo inexplicável, que tenta repetir a vida no gramado, para que as coisas permaneçam como sempre foram: na arena, gladiadores, na tribuna, governadores.
A Copa do Mundo aproxima os contrários e disfarça outras disputas fora de campo. Sobe a poeira. Mas o dinheiro é bom para todos. Cardumes de peixes variados, dilaceram o campeonato ludopédico: os grandes, com suas grandes bocas, amealham nacos maiores; os pequenos pegam o que sobra. Fora do estádio, conflitos raciais e religiosos abrem chagas e não há o apito de um árbitro. Manchada de sangue, ergue-se uma bandeira, mas ela ainda não anuncia justiça. Travas da barbárie, com traços de petróleo, diamantes e escravidão, fazem sulcos hemorrágicos sobre a pele de ébano. E pés duros e rachados – pés-de-moleque – que pisam a grama cirurgicamente aplicada sobre a base terraplanada sustentam corpos inertes, cabeças zonzas a girar olhos embasbacados em meio à massa multirracial. Spots, telões, placares luminosos preenchem um panorama surreal e trombetas infernais “vuvuzelam” os ouvidos mais calejados. Abafam-se os gritos da menina circuncidada e o esgüelar do gurizinho que perambulou no campo minado.
África, que é do Sul, do Saara, do “chifre”, das ilhas ocidentais; que é muçulmana, animista, cristã... o que mais? Mãe-chão de tantos povos e culturas, antiga porção do Éden. Testemunhou civilizações, reis e peões e, hoje, é o torrão de uma infinidade de pobres. Mas não lhe faltam opulentos – poucos, é verdade, mas que concentram força e riqueza pelo uso da truculência, do vício e da magia. Temidos, controlam tribos e países por meio de capangas e tropas. Alguém vê a poeira subir?
“Que formosos são sobre os montes os pés do que anuncia as boas novas, que faz ouvir a paz, que anuncia coisas boas, que faz ouvir a salvação...!” – canta o poeta de Deus. No entanto, há pés que se especializaram na ligeireza, que lépidos e tocando apenas a superfície, não marcham com firmeza para o compromisso. São errantes e sonsos. No gramado do campo, os pés da agilidade existem para a exibição, não concretizam coisa alguma, o seu vínculo é com o espetáculo que, embora aproxime e confraternize, rara vez está a serviço de uma causa maior. Não sobem a um monte, mas na plana maciez de um palco verde, mais alienam do que integram. Vidas a eles se entregam, submissas e obcecadas ao ponto de por eles matar ou morrer.
Excepcionalmente, uma cabeça que se apóia sobre os pés de chuteiras reúne elementos para algo mais que a partida e a comemoração. Jogar e festejar são, muitas vezes, as únicas coisas que seus sujeitos alcançam fazer. São em tudo fracassados, menos entre os limites do campo. Vêm, muitos deles, de origem obscura e poucos percebem o quão luminosos poderiam se tornar. Não é assim com o goleiro herói transmutado em monstro carniceiro? Não foi assim com aquele que, sem brios, ostentava o título de “animal”?
Justiça seja feita, em todas as modalidades, a sedução da popularidade, riqueza e poder fora de controle podem entorpecer; não é algo exclusivo desta ou daquela atividade. Mas eis que o povo consagra determinados heróis, os quais, não são capazes de discernir a oportunidade que a vida lhes deu para servirem aos demais. E assim, vivem para si mesmos sem jamais se satisfazer.
O quanto implica colocar o pé no chão? Em conquistas muito além do que podemos imaginar. “Todo lugar que pisar a planta do vosso pé... será vosso”. Se a cada evento da humanidade, renova-se a expectativa de que, depois dele, tudo ficará melhor que dantes, que resultados se devem esperar de intermináveis horas e bilhões investidos em rolar a bola? Não importa se Dunga ou Diego ficam ou saem. Ou que destaque será homenageado. A pergunta a ser feita é: Com tudo isso, em que o mundo ficou melhor para as pessoas? O verdadeiro time dos sonhos é constituído daqueles que, com o pé no chão, vão “andando e chorando enquanto semeiam”, pois “voltarão com júbilo, trazendo os seus feixes”.
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