terça-feira, 23 de novembro de 2010

Visitando missionários em Goiás




No sábado, 30 de outubro, saímos bem cedo de Brasília em direção a Alto Paraíso de Goiás, na companhia dos missionários Manuel Alexandre Pereira Lima e Rosângela Tavares da Silva Lima. Iniciamos a jornada através do cerrado passando pela cidade-satélite de Sobradinho (DF), depois por Planaltina, Formosa e Itiquira, no Estado de Goiás, pelas BR 010 e GO-118 conjugadas, na direção Norte através de São Gabriel e São João da Aliança (GO).

Na mente, a expectativa de encontros que pretendíamos fazer na cidade. Com que tipo de recepção poderíamos contar? Haveria um choque cultural? Haveria abismos entre nós e o povo do lugar? Como reagiriam à mensagem? Os mais diversos pensamentos queriam definir a palavra a ser dita ao coração dos paraisenses.
Obras no caminho, duplicação e desvios na rodovia. A paisagem rural se alternando com o cerrado nativo e os eucaliptais sobre os platôs e as ravinas das chapadas. Nas depressões do relevo, veredas de buritizais resistem ao avanço do agronegócio nos últimos oásis que ainda é possível entre a terra sulcada de plantações de soja, tomate e laranja.
Quando as construções tradicionais da cultura cabocla dão lugar aos ícones do misticismo esotérico sabemos ter chegado a Alto Paraíso, um enclave de sete mil pessoas aproximadamente sobre as campinas entre as chapadas.

Passados os arcos que assinalam a entrada da cidade, chegamos à rua principal. Ali está a livraria Guerreiros da Luz, com seu aspecto de castelo medieval por for a e, dentro, muitos livros: Bíblias, devocionais, testemunhos, estudos bíblicos, manufaturados decorativos e encadernações à base de fibra de imbira. A muralha confronta Avalon, uma organização comercial inspirado na cultura mágica com artigos para abastecer esotéricos chegados à bruxaria.

A cordialidade da vizinhança disfarça uma guerra surda entre os princípios da fé bíblica dos cristãos evangélicos e as muitas correntes espiritualistas que se refugiam na cidade que, segundo crêem, será preservada como um dos centros da Nova Era.

Alto Paraíso é um pólo que reúne hippies, dreads, rastafaris, gurus e outras vertentes alternativas. Mas as igrejas evangélicas pululam onde antes se arrastava uma presença tradicional católico-romana. No entanto, os missionários metodistas obtém mais comunhão com missões independentes do que com igrejas estabelecidas.


Na chegada, vamos direto à feira semanal que se reúne em um galpão da prefeitura. É importante encontrar as pessoas antes das 11 horas, pois só tornarão a se reunir na semana seguinte e enquanto fazem seus pequenos negócios de subsistência ficam mais receptivas.

Somos observados com discrição por jovens barbudos e de cabelos longos, mocinhas que lembram ciganas e mais velhos, que exibem traços da cultura alternativa nas roupas e na conduta. São simpáticos e afáveis. Todos conversam ou examinam as mercadorias. Crianças circulam entre os adultos e as bancas. Do fundo do galpão semicoberto um ritmo de capoeira sai de instrumentos e das palmas que acompanham a jinga de jovens lutadores. Turistas brasileiros e europeus vêm buscar alternativas de estilo de vida enquanto compram artesanato ou comidas rusticamente preparadas.


Entre os cumprimentos e compras, os missionários da Igreja Metodista de Vila Isabel convidam a todos a assistirem, de tarde, à inauguração de sua nova casa, bem nos fundos da livraria que empresta livros para serem devolvidos depois. Mais que um negócio, os livros são parte de uma estratégia de aproximação e conscientização.

Vamos à casa de Juliana, uma jovem artesã dread, com dois filhos: Davi Vidá e Glória Raiz, esta de 40 dias. Os casais têm de duas a três crianças, bonitas e saudáveis, criadas de modo alternativo. Alguns deles se converteram a Jesus e aos poucos deixam de usar maconha. São simpáticos e acolhedores, assim como os rastafaris. Neste sábado, a maioria dos homens tem de ir a Brasília gravar umas músicas durante um evento musical. Por isso, ao cair da noite apenas mães e filhos vêm à inauguração.

A reunião começa atrasada. O senso de horário é frouxo e as distâncias percorridas a pé são longas. Os lugares vão sendo ocupados e as crianças mostram que necessitam de atenção especial. Único pastor presente, coloco-me em uma posição que me permita ver o máximo de todos. Else Amelia, minha esposa, começa a tocar em um teclado músicas que conhecemos e as mulheres têm uma proposta `dread` de tocar os mesmos hinos em ritmo `reggae`. O resultado não é ruim, mas as crianças só irão participar quando a tecladista cantar coisas específicas para elas ou contar-lhes histórias da Bíblia e cantar-lhes canções interativas.

Após as canções, a oração e a meditação bíblica aproximam ainda mais os presentes: nove adultos e oito crianças, em uma sala de tamanho médio. A mensagem se baseia na Carta aos Efésios, de Paulo, capítulos 1 e 2: desafios espirituais e vida cristã madura.

Aproxima-se a inauguração da casa recém construída pelo casal com a condução da obra feita por Alessandro Morais, um jovem cearense radicado em Alto Paraíso e que tem sido discipulado pelo casal missionário. Todos se sentem muito à vontade na missão metodista e gostam de passar tempo juntos.

A casa está cercada de barro vermelho e falta muita coisa até estar concluída. Mas a inauguração antecipa o uso do espaço e atrai quem já estava presente e outros que acabam de chegar: missionários de agências independentes, todos especializados em atuar na cultura alternativa, jovens com formação superior e experiência missionária em outras regiões. O número chega a umas trinta pessoas, contando as crianças.

Concluído o encontro, as pessoas voltam para casa, No domingo é dia de eleição e também vamos conhecer um pouco mais da região. Por isso, precisamos descansar.

Chega o domingo e vamos ver algumas pessoas e lugares. Há providências a tomar no “forte” da missão e de lá vamos aos poços da Loquinha, área preservada de cerrado com abundância de água cristalina, locais onde há artesanato e beneficiamento de frutas. Um tucano de bico amarelo meio alaranjado e ponta preta vem nos ver passar pela estrada de terra e posa para as lentes.

As pessoas que encontramos são tratadas amavelmente pelos missionários de Vila Isabel no sertão goiano. Vão assim se criando vínculos de amizade e as pessoas do lugar se sentem acolhidas pelo casal. Ficamos um tempo para conhecer as características sociais e a inclinação mística dos paraisenses, metade deles imigrada de outras partes, mas que fazem boa parte da riqueza local, combinando a produção de cereais e o turismo alternativo.

Vivendo de modo peculiar, relativamente afastado da agitação das cidades grandes, a a população de Alto Paraíso está em meio a uma acirrada disputa entre grupos religiosos e mexe com interesses internacionais. Há muitos estrangeiros explorando as riquezas locais e fazendo negócios lucrativos, seja no turismo, seja instalando organizações filantrópicas, seja trazendo filosofias místicas para sincretizar com as crenças nativas.

Com a aproximação de 2012, ano que supostamente marcará a era de degêlo dos pólos e a elevação do nível dos oceanos, os cristãos se preparam para uma enxurrada de visitantes na cidade. Entre eles, metodistas tentam com poucos recursos alcançar o coração e a mente das pessoas, mas precisam de oração, contato, apoio material e cooperação voluntária. A Igreja de Vila Isabel já deu um passo ao enviar o casal Alexandre e Rosângela. Quem mais estará disponível para atuar nesse cenário e se engajar nessa batalha?


segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Lusofónico

Já que alguns amigos revelaram apreciar esta prosa atribuída ao escritor luso Fernando Pessoa, transcrevo-a.


PALCO DA VIDA

Posso ter defeitos, viver ansioso e ficar irritado algumas vezes mas, não esqueço de que minha vida é a maior empresa do mundo, e posso evitar que ela vá à falência.

Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver apesar de todos os desafios, incompreensões e períodos de crise. Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e se tornar um autor da própria história.
É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar um oásis no recôndito da sua alma.

É agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida. Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos. É saber falar de si mesmo. É ter coragem para ouvir um "não". É ter segurança para receber uma crítica, mesmo que injusta.

Pedras no caminho?
Guardo todas, um dia vou construir um castelo...

(Fernando Pessoa - Lisboa, 13.06.1888 — Lisboa, 30.11.1935)

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Serra, desculpa! Valeu?

Vão dizer que é para tirar vantagem da imagem de "coitadinho". Não importa. Hoje, em minha cidade natal, o candidato oposicionista José Serra (PSDB) foi agredido enquanto fazia corpo a corpo eleitoral. Ainda não sei - e nem quero saber - quem o agrediu, só sei que foi no Rio de Janeiro.

Por isso, eu, carioca, quero pedir desculpas ao senhor José Serra. Não votei nele, nem lhe tenho simpatias, mas em meu próprio nome e em nome de milhões de cidadãos desta terra luminosa que, pela Providência, é lugar de tantas histórias gloriosas e outras nem tanto, mas que é, queiram ou não, nevrálgica na vida brasileira, é que eu me desculpo pelo acontecido nesta quarta-feira.

É preciso que se diga ainda que a maioria dos cariocas, gente de bem, ordeira e civilizada, não pactua com a barbárie e que, apesar do ocorrido, qualquer pessoa pode vir à nossa cidade, que não obstante seus variados problemas e mazelas, ainda é no coração de toda gente a Cidade Maravilhosa.

É verdade que ainda lutamos contra excrecências sociais que brotam qual ervas daninhas de distorções sociais, políticas e econômicas. Esta é uma terra de contradições, de virtudes abortadas e pecados à flor da pele, caótica e anárquica. Mas é também uma terra de generosidades, de bons vizinhos, de gente solidária e que faz graça de suas misérias e vai vivendo apesar dos tombos que leva amiúde. É um lugar onde a bandidagem é capaz até de esquecer que é bandida quando
alguém diz "- Oh! Glória!". Que me perdoem bairristas de outros lugares, aqui é o melhor lugar do mundo. Na capital da cordialidade, sua gente é gentil. Olhem nas ruas e confiram que "ela é carioca, ela é carioca, basta o jeitinho dela andar..."

Nossas famílias querem inclusão; não queremos ser tratados como suspeitos do tráfico nem da violência. Nossa gente precisa é de justiça, de educação, de saúde. E da maior de todas as políticas públicas: a gentileza.

No Rio, seja Dilma ou Serra, direita, centro ou esquerda, os cariocas querem paz, amor, ordem e progresso.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Uma nova mitologia latino-americana



Vivendo e aprendendo. Essa história chilena dá-nos muitas lições.
Destaco que há um paralelo entre a região de Atacama (que mantém algumas correlações com a noção de tártaro, inferno, com terrenos nus, pedregosos, salinos) e certas paisagens da Grécia e ilhas do Egeu, com seus cenários vulcânicos, dos quais a mitologia narra coisas fantásticas que permaneceram como forma para uma vasta explicação da vida e símiles filosóficas que estão espalhadas por todas as áreas do conhecimento.
Sabemos que, em geral, os povos herdeiros de antigas civilizações (gregos, persas, chineses, japoneses etc) tiveram séculos de enfrentamento com as ameaças climáticas e catástrofes naturais, estando na frente de outros povos mais recentes (o Brasil, por exemplo). À exceção, no continente americano, dos herdeiros de antigas civilizações (maias, astecas, incas etc.), que foram subjugadas e dizimadas pelo colonialismo europeu, aqueles primeiros desenvolveram saberes refinados que só puderam ser atingidos exatamente porque lutaram muito pela própria sobrevivência, sendo provados de todos os modos e legando ao mundo histórias narradas, claro que sem cientificismo, mas mitologias que nos encantam e ilustram pelas alegorias com as dificuldades, perdas e ganhos de cada um de nós no dia-a-dia da modernidade.
Curiosamente, na cultura ibero-americana, destacaram-se seis escritores (contadores de histórias) que brotaram justamente das culturas em que há traços remanescentes das antigas civilizações pré-colombianas, com o prêmio Nobel de literatura: Gabriela Mistral (Chile, 1945), Miguel Ángel Asturias (Guatemala, 1967), Pablo Neruda (Chile, 1971), Gabriel García Márquez (Colômbia, 1982), Octavio Paz (México, 1990) e agora, Mario Vargas Llosa (Peru, 2010). O Brasil, a mais forte economia latino-americana, ainda não emplacou um Nobel, embora Josué de Castro, Herbert de Souza (Betinho) e Milton Santos o merecessem.
A saga dos 33 mineiros de Copiapó mobilizou, no mesmo ano em que o país foi arrasado por um grande terremoto, os meios de comunicação do mundo inteiro para contar uma história, que até se pode chamar de milagrosa, de pessoas singelas e carregadas de sua humanidade. Isso deu notícia, vai dar livro e versões para cinema e TV.
Aprendi que, em vez de valorizarmos a terra que não tem terremotos, maremotos nem furacões, devemos mesmo é valorizar o gênio, a sagacidade, a resistência e a resiliência de um povo que acredita que, sim, é possível superar suas desgraças e tem a altivez de não aceitar ser encabrestado por quem quer que seja, venha de dentro ou de fora!
Nosso papel é influir na formação do caráter desse povo jovem com os princípios do Evangelho, da graça, do amor, da solidariedade e ajudar a modelar o perfil da raça brasileira, sem amputá-la de sua coragem, determinação e consciência do papel a desempenhar.
No resto, parabéns aos chilenos. Eles têm sabido superar os modelos autoritários, consolidar sua economia, fortalecer o papel das instituições e descobrir o caminho da ascensão civilizatória no concerto das nações.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Do segundo turno à alternância

Contudo, Nínive tem mais de cento e vinte mil pessoas que não sabem nem distinguir a mão direita da esquerda, além de muitos rebanhos. Não deve­ria eu ter pena dessa grande cidade?

(Jonas 4.11)


Houve um tempo romântico em que, para ocupar-se cadeira de parlamentar, o sujeito tinha de exibir moral ilibada e extensa folha de serviços prestados à sociedade. Também houve um tempo em que era praxe os partidos políticos se alternarem no poder, num revezamento que dava oportunidades iguais às agremiações políticas para apresentar o seu estilo de governança e demonstrar suas virtudes pela indicação de um monarca de barbas grisalhas.

O tempo passou e, contrariando certa tese que diz que as coisas se aperfeiçoam quando o tempo passa, a política brasileira eleva ao degrau mais alto do legislativo nacional gente que tem intimidade com a telinha ou com a bola: Tiririca, Romário, Jean Willys entre outros. E quase acaba diplomando candidatas honoráveis tais quais a ‘Mulher Pera’, a Mulher ‘Melão’ e Tati Quebra Barraco. Se no passado houve barões do café, voto de cabresto, coronéis do cacau, imaginava-se que o século 21 seria bem diferente.

Passamos mais uma eleição sem lideranças expressivas nem nomes de valor inquestionável. Sobraram nulidades, bizarrices e mistificadores de todo tipo. No entanto, dá para aprender algumas lições valiosas.

Lula, por exemplo, pertence a um panteão sagrado e não pode ser abalado por críticas de pessoas mortais. Mesmo assim, sua candidata, Dilma, não encaçapou no primeiro turno.

A ‘verde’ Marina foi providencialmente a peça que desestabilizou o “já ganhou” da candidata vermelha e o povo escolheu o segundo turno como candidato. Enquanto isso, Serra, o ‘tucano’ da campanha fraca, foi abençoado com uma segunda oportunidade, indo para o ‘tudo ou nada’.

Em novembro, a decisão pode confirmar o sucesso do uso da máquina governamental pró Dilma ou, para melhorar a democracia, os brasileiros e brasileiras podem dar preferência à alternância no poder. Esta sim, uma opção menos de aprovação de José Serra e o estilo peessedebista de governar do que o desejo sincero por um arejamento no Planalto.

Votar na alternância não é o mesmo que rejeitar Dilma ou o PT. Muito menos confessar-se apaixonado pelo charme de José Serra, FHC e outros compadres social-democratas. Alternar, neste caso, é dar ao PT a oportunidade, que o imediatismo do poder não lhe permite enxergar, de se reciclar, de retornar mais humilde e amadurecido em 2014.

Se o voto confirmar mais um período petista no Executivo federal, o ‘circo’ que conta em seu elenco com o palhaço Tiririca vai armar sua lona em Brasília e, “ninguém disse, ‘seu’ Zé”, mas digo eu: fará um espetáculo sem graça, com feras fora de controle a devorar os direitos e liberdades individuais do respeitável público, que às vezes não sabe como usar a mão esquerda nem a direita para teclar o botão verde da urna eletrônica porque não sabe que é o povo quem manda no Estado.


LUCIANO P. VERGARA

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Alguém sabe onde está o fusquinha do irmão André?



Em O Globo da quinta-feira, 16.09.2010, o editorial abordava a postura antidemocrática que o ex-deputado e ex-ministro José Dirceu, cassado por causa de seu envolvimento no escândalo do “Mensalão”, vem demonstrando quanto ao papel da imprensa. Na opinião do jornal Dirceu está vivamente interessado em concretizar uma antiga proposta do Partido dos Trabalhadores de restringir o peso da imprensa.
A tese do editorial é que o PT, desde que chegou ao poder, não esconde que, à semelhança do casal Kirchner, na Argentina, e o mandatário venezuelano Hugo Chávez, sem excluir os outros potentados latinoamericanos com tendência ao autoritarismo de equerda, o governo deve limitar o número e o tamanho de empresas de comunicação, por meio de regulações acionárias no mercado e intervenções de um comitê regulador sobre os diversos conteúdos.
A tese pode ser ou não a expressão da verdade. Mas a intenção de controlar a imprensa com mão de ferro é uma realidade que vem assombrando toda a América do Sul desde meados desta década. A se confirmar a tese, irá consubstanciar-se o primeiro império sindical do planeta, um fruto plantado pelas velhas burocracias bolcheviques que chega a vingar no hemisfério sul.
Se tal acontecer (e não estamos tão longe disso!), a imprensa não será a única a ser amordaçada. É apenas a primeira. A bola da vez passaria então às igrejas.
Imprensa e igreja são versões do mesmo sentimento. Ambas estão em busca da verdade. Ambas se dedicam a proclamar, a anunciar, a abrir os sentidos da sociedade. Ambas incomodam as aspirações hegemônicas com suas denúncias proféticas, vaticinando tendências e resultados de curto, médio e longo prazos. Imprensa e igreja, embora tenham um parentesco complicado que as leva, muitas vezes, a análises e propósitos conflitantes, têm entre si a mesma essência marcada pela indignação contra as injustiças.
Não à toa, João Wesley enxergava a utilidade do binômio Bíblia-jornal e tanto recomendava a seus pregadores que se atualizassem pela leitura de informativos quanto se definia como “homem de um único livro” (a Bíblia). Apesar das tensões do parentesco, Imprensa e Evangelho não são excludentes, mas complementares. A Igreja genuína proclama a verdade revelada, a imprensa séria mostra a verdade dos fatos. Uma, fala com amor e cuidado pastoral, a outra, com incisividade e sem amarras litúrgicas.
Por isso, aqueles que ambicionam o poder acima do controle das instituições detestam os conselhos e advertências das duas vozes da consciência social presentes na religião e na imprensa. Se hoje a imprensa é atacada e impedida de cumprir o seu papel sagrado sem que a sociedade reaja a esse golpe, amanhã será a vez da religião ser agredida e silenciada.
A permanência de um superpartido no poder leva a efeito o de que José Dirceu foi acusado: a “mexicanização” (referência às mais de sete décadas de pontificado do Partido Republicano Institucional no México). O Brasil, maior país católico, que é também a terra de vertiginoso crescimento evangélico, corre o risco de “sovietização”. Assim foi com as repúblicas da “Mãe Rússia”, que amargaram 70 anos de hipercontrole comunista retrógrado. Idem com Judá, no passado, submetido a 70 anos de cativeiro em Babilônia.
Prova de que há um plano de alteração na ordem mundial, de mudança de eixos geopolíticos pela inversão social, marcada pela rebeldia e pelo descrédito nas instituições, é o avanço da diluição moral, intelectual e política a que assistimos na América Latina. Por que nesta região? Porque ela é frágil cultural e politicamente, mas tem uma razoável base econômica que daria a sustentabilidade que Che Guevara e os soviéticos enxergaram e quiseram trazer para o seu lado. E que melhor hora do que esta, quando a patrulha ideológica norte-americana baixa a guarda em função das crises moral e econômica dos EUA, com a diminuição de sua hegemonia para novos e poderosos agentes?
Caso o irmão André (o “contrabandista de Deus”) queira vender o seu fusquinha carregado de bíblias, vale uma boa oferta. Pode ser que ele volte à ativa no Brasil.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

O nosso nome é Francenildo

Da luta entre o gigante guerreiro Golias e o menino Davi, cedo aprendemos que Deus ajudou o menino a vencer o primeiro. Aprendemos a história da luta entre o rude e abusado filisteu e o ruivo guri que fedia a curral de ovelhas na Bíblia (primeiro livro de Samuel, capítulo 17). A lição é que Deus se coloca ao lado de quem nele confia e não se estriba em suas próprias fama, força e habilidade.
A eleição de 2010 traz de novo a cena preservada por um cronista de Samuel. Não tem muito tempo, apareceu por aqui durante o primeiro mandato de Luís Inácio Lula da Silva. Novamente, ela conecta a presente quadra da vida brasileira ao panorama bíblico e expõe gravíssimo risco à brava gente.
Não! Não tem nada a ver com a filha do tucano José Serra – Verônica – cujo sigilo na Receita Federal, em 2009, foi o prato de duas invasões de arapongas de estrelinha vermelha. Eu me refiro a outra coisa.
Lembra que o então ministro da Fazenda, Antônio Pallocci, em 2006, sustentou uma polêmica com um caseiro piauiense, de nome Francenildo, que supostamente teria recebido dinheiro para caluniar o ministro e várias personalidades pela suspeita de uso irregular de uma mansão no Lago Paranoá, em Brasília, para conchavos políticos? Pois então, o caso de Verônica é, simplesmente, a tampa da Caixa de Pandora, da qual procederão as mais malignas catástrofes, se nada for feito para fechá-la a tempo.
Muito mais que atingir a débil candidatura do PSDB à presidência ou demais caciques social-democratas cujos segredos foram igualmente violados, assusta o fato de os “filisteus” do politburo trabalhista ensaiarem o que farão à indiazada toda por longo tempo, caso a estrela do PT não se desgrude do Planalto para oxigenar a alternância do poder.
Ora, se paus mandados bolcheviques entram no sistema da Receita e passeiam pelo sigilo fiscal de personalidades, do tipo “cachorro grande”, da política nacional, que é a gente do naipe e da visibilidade desses graúdos, o que não farão aos anônimos assalariados e pequenos e médios empreendedores distribuídos pelas alta e baixa Classe Média, que são os maiores pagadores de impostos e quem movimenta boa parte da renda socialmente relevante do país? O golpe é tão brutal que põe sob suspeita toda a máquina fiscal.
De vários cantos da América Latina, em laboratórios de sociedades do medo, como Cuba, Venezuela, Bolívia e, recentemente, Argentina e Equador, prodigalizam-se episódios de raro retorno às trevas do autoritarismo sindical leninista. A Classe Média é lançada no colo da esquerda retrógrada pelo medo do pólo oposto, onde empresários conservadores e magnatas da vida rural ainda guardam o bafo das ditaduras de direita. Sementes que hibernaram dos anos 1960-70 e a Guerra Fria desabrocham no Paraguai, Uruguai e quiçá no Peru, com novos mandatários fichados nos anais da repressão por terem atuado na clandestinidade.
O ímpio gigante será um desafio hercúleo a vencer se o pequeno “Davi” não se dispuser a enfrentar o monumental mostrengo. Pallocci está na cúpula da campanha de Dilma Roussef e, junto com os caciques petistas, sua trajetória novamente coincide com a arapongagem governamental e a figura do “estado Leviatã”, concebida recentemente por João Ubaldo Ribeiro (O Leviatã pega, O Globo, 08/08/2010).
Calma, porém. A lição tirada da Bíblia mostra a vitória da criança ingênua mas resoluta em sua confiança em Deus. No caso brasileiro, “Davi” é Francenildo, o herói do povo, o “Zé” que dos poderosos se vinga com as mãos limpas e com a verdade, pois quem não deve não teme. E, diante da definitiva ameaça da versão verde-e-amarela do estado policial, no qual faltará o abrigo das liberdades individuais, do direito à preservação de dados pessoais e dos assuntos da vida íntima perante a indiscrição do Grande Irmão (pensou em 1984, de George Orwell?), só nos restará dizer que doravante todas as pessoas do povo se chamarão Francenildo.